Resumo de Antropologia - Relativismo Cultural

A compreensão da cultura a partir dos códigos que ela apresenta


O relativismo cultural é uma perspectiva muito cara aos estudos das culturas, em especial àqueles realizados pela antropologia. Esse conceito reivindica o caráter singular de cada cultura, o que as tornam inteligíveis apenas a partir de seus próprios códigos. A adoção desse ponto de vista é fundamental para que se evite comparações de cunho hierarquizante acerca dos costumes, práticas e crenças de povos distintos. 
Contudo, quando usado para refletir acerca de algumas práticas específicas, o relativismo cultural pode ser permissivo com graves desrespeitos aos direitos humanos. Neste artigo, vamos conhecer melhor a defesa realizada por esse conceito antropológico, seu histórico e os conflitos que podem ser gerados a partir de sua utilização de forma indiscriminada. 

O que é e o que defende o relativismo cultural? 


O relativismo cultural é um conceito e perspectiva antropológica que se opõe à categorização de culturas como “superior” ou “inferior”. Nesse sentido, ele define que cada grupo social possui uma cultura específica que só pode ser analisada a partir de seus próprios códigos. Sendo assim, quando se propõe a conhecer uma comunidade que apresenta valores completamente diferentes dos que pratica ou adota como certo e errado, o pesquisador não deve apresentar juízos de valor sobre essas práticas. Nesse processo, é necessário que o antropólogo abandone seus próprios códigos culturais e se proponha a compreender os hábitos daquela comunidade a partir dos valores que ela possui. 
O relativismo cultural foi uma perspectiva importante para os estudos dessa disciplina, sobretudo, por rechaçar o etnocentrismo e o positivismo. Essas perspectivas definiam que, quanto mais distante dos padrões europeus, mais primitiva uma cultura seria e que existiria uma progressão social a ser cumprida por essas comunidades. Nesse sentido, a perspectiva apresentada pela ideia de relativismo cultural apresenta uma importante contribuição para os estudos da antropologia realizados no final do século XIX. 
A perspectiva expressa na ideia de relativismo cultural tem como origem o pensamento do antropólogo Franz Boas. Ele foi um dos primeiros intelectuais a tecer críticas contra a organização hierarquizada das culturas que era apresentada pela antropologia. Além disso, ele também combatia estruturas de opressões contra grupos específicos, como o nazismo. Desse modo, a literatura da área defende que o conceito de relativismo cultural surge como uma espécie de síntese das ideias que ele defendia. Contudo, esse termo nunca foi utilizado por Boas. 

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Aplicações do conceito 


A ideia do relativismo cultural já foi utilizada em importantes estudos realizados pela antropologia. E possibilitou o entendimento de sistemas específicos de alguns grupos culturais tomando-os como referência para isso. Essa aplicação do conceito se fez presente nos trabalhos realizados por Franz Boas com os esquimós e permitiu compreender a existência de diferentes formas de perceber os fenômenos da natureza. 
Outro exemplo foram os estudos da cultura Tchambuli realizados por Margaret Mead. Os trabalhos realizados pela antropóloga foram importantes para perceber como os estereótipos de gênero podem sofrer variações nas diferentes culturas. Seu trabalho mostrou como, naquele povo, os de gênero que são frequentemente associados às mulheres não são legítimos. 

Tensões geradas a partir do conceito 


Além de contrapor o etnocentrismo e o positivismo, o relativismo cultural cumpre um importante papel ao destacar a diversidade cultural existente no mundo. Mas, quais seriam os limites a serem adotados no uso dessa perspectiva? Uma das principais críticas feitas ao conceito diz respeito à possibilidade de apresentar uma visão cristalizada acerca das culturas. Desse modo, tende a ser condescendente com práticas violentas. 
O que isso quer dizer? A adoção da premissa de que as culturas só podem ser analisadas a partir de seus próprios códigos pode inviabilizar reflexões acerca dos processos de mudança cultural. Desse modo, os valores e práticas adotadas por determinados grupos deixam de ser questionados devido a um entendimento de que “nessa cultura é assim”. 
Para entender melhor os conflitos que o relativismo cultural pode gerar nesse sentido, é importante refletir acerca de exemplos práticos como a cliterodectomia - remoção total ou parcial do clítoris. Esse ato de mutilação da genitália feminina está presente em 25 países. Para as comunidades que praticam, a cliterodectomia possui uma explicação que, muitas vezes, é aceita pelas mulheres a ela submetida. Do mesmo modo, existem países na África, Ásia, América e Oceania em que a homossexualidade é vista como uma prática criminosa passível de punição, inclusive, com morte. 
Nesses lugares, as violências contra esses grupos deveriam ser entendidas como traços da cultura e refletidos a partir das explicações que ela oferece? O que alguns antropólogos defendem é que é preciso levar em consideração as imposições da cultura para os diferentes grupos que estão submetidos a ela. E, desse modo, refletir acerca das possibilidades de mudança dos valores e práticas culturais que são problemáticas. 
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