Resumo de Sociologia - Ideologia

Conheça a polissemia com que o termo é utilizado


Ideologia! Eu quero uma pra viver”. Quem conhece o termo através da letra da música de Cazuza talvez não imagina o arcabouço de produção teórica que existe por traz dele. No senso comum, a ideologia é vista, simplesmente, como uma crença bastante arraigada no pensamento e na forma de agir de um determinado indivíduo ou coletivo. Contudo, sociologicamente falando, ela determina muito mais do que o conjunto de valores que orientam a atuação individual ou coletiva. 
A palavra ideologia foi usada pela primeira vez no século XVIII, quando o filósofo francês Antoine Destutt de Tracy publicou o livro “Fundamentos da Ideologia”. E, desde então, o termo foi revisitado por outros pensadores e passou ter conotações distintas daquela que foi pensada inicialmente. Atualmente, no contexto político brasileiro, ele é largamente utilizado para promover a desqualificação de produções acadêmicas e concepções políticas. 

Como a concepção de ideologia mudou ao longo tempo? 


O termo ideologia foi criado por Destutt de Tracy para designar uma ciência responsável pelo estudo das ideias. Em sua concepção, por meio dessa ciência seria possível criar um método para estudar a origem, o processo e o modo como se dá o desenvolvimento das ideias ao longo da história. Tracy defendia que as ideias surgiam como o resultado das relações que o homem estabelece com a natureza. 
Com isso, o filósofo se contrapunha à corrente espiritualista que via a elaboração das ideias como um fenômeno desconexo das ações humanas, um processo que se desenvolvia como que por magia. E se firmava como um pensador da corrente materialista, já que defende a materialidade vivida pelos indivíduos como essencial para compreensão do mundo e a valorização do conhecimento científico. 
O pensamento de Tracy influenciou a estruturação do positivismo por Auguste Comte. Ele viu no materialismo de Tracy uma possibilidade de desenvolver o pensamento no campo das ideias. Por outro, Karl Marx, ao analisar o contexto da sociedade capitalista produzida pela Revolução Industrial apresenta um posicionamento crítico acerca da concepção original de ideologia. 


Com base na perspectiva do materialismo histórico dialético, Marx vai evidenciar a ideologia como um instrumento utilizado pela burguesia para manter uma posição de dominância em relação ao proletariado. Segundo Marx, a burguesia desenvolveu uma estrutura que produz uma falsa concepção da realidade. Isso se deu pelo controle da produção intelectual e cultural que é acessada pela classe dominada. 
De acordo com o sociólogo, o processo de dominação por meio da ideologia está intimamente ligado ao processo de alienação a que o proletário é submetido. Essa alienação se dá no contexto da produção industrial pela fragmentação do trabalho, que promove desconexão com as etapas do processo de fabricação e com o produto final. 
Em uma escala mais ampla, a alienação faz com que o proletariado não se veja como tal, perca a dimensão da classe social a que pertence e como é explorado pela burguesia. Com isso, ele absorve a ideologia da classe dominante. Isso impossibilita que os membros do proletariado se organizem para promover mudanças na estrutura social por meio da luta de classes. 

Como a ideologia é usada atualmente? 


A partir da conotação negativa que o termo ganhou a partir do pensamento apresentado pelo marxismo, no contexto brasileiro, ele tem sido utilizado para descreditar ideias, pesquisas científicas, movimentos sociais, posturas políticas e outros. A alcunha de “ideológico” foi convertida em sinônimo de falso, negativo, sem credibilidade, manipulador e isso tem tido grandes implicações no contexto político nacional. 
O principal exemplo dessa forma de utilização é o termo “ideologia de gênero”, que é usado por grupos conservadores para designar a produção intelectual, pautada na teoria feminista, acerca das dinâmicas de gênero existente na sociedade. O termo surgiu entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000 dentro da Igreja Católica, no Conselho Pontifício para a Família, que se opunha às pautas defendidas pelo feminismo. 
A partir do ano de 2004, ele ganha maior popularidade porque é definido pelo movimento Escola Sem Partido como o inimigo a ser combatido dentro das instituições de ensino. Contudo, o termo ideologia de gênero não possui fundamentação de base científica, logo não é reconhecido pela academia. A sua utilização, assim como a classificação de filmes, peças teatrais e outras produções que pautam o debate de gênero como ideológica tem como objetivo desqualificar esse campo de estudo e tudo a ele associado. 
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