Questão 3 Comentada - 2024 - Vestibular - COPESE (UFJF)

TEXTO II


As Caravanas
Chico Buarque de Hollanda


E um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga


(...)


Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné


Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão


E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar


Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
Não há, não há


Fonte: HOLLANDA, Chico Buarque de. AS CARAVANAS. In: CARAVANAS. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2017. CD, (2:47).



TEXTO III


Luísa Mahin
Jarid Arraes


No século 19
Luísa Mahin nasceu
Com origem africana
Sua história aconteceu
E com incessante gana
Seu nome prevaleceu.


Vinda da Costa da Mina
Afirmava ser princesa
Mas vendida como escrava
Teve na luta a certeza
Depois de alforriada
Demonstrou sua proeza.


Viveu como quituteira
E morou em Salvador
Usou com inteligência
Seus talentos de sabor
Pois usava o tabuleiro
De mensagens portador.
(...)
Importante mencionar
Que foi mãe de Luís Gama
Poeta e abolicionista
De imensurável chama
E por ele foi citada
Respeitando sua fama.
(...)
O pai branco de Luís
O vendeu quando criança
Separando de sua mãe
Na racista podre herança
De ser branco dominante
Indigno de confiança.


Mas Luísa era guerreira
A rebelde sem igual
Fez ainda de sua casa
Como um quartel general
Onde eram planejadas
As revoltas sem igual.


Apesar de tudo isso
E de tudo que lutou
Essa mulher imponente
Muito se silenciou
Pois ainda não se conta
Tudo que realizou.


Mas apenas sua memória
E forte o suficiente
Pra mexer na estrutura
Dessa gente incoerente
Que não fala a verdade
Sobre o negro insurgente. (...)


Fonte: ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. São Paulo: Pólen, 2017.





O poema de Jarid Arraes conta um pouco da história de Luísa Mahin, uma princesa oriunda do Golfo da Guiné, na África Ocidental. Ela foi capturada no continente africano e, tendo sido escravizada, enviada ao Brasil. Posteriormente alforriada, integrou o grupo da Insurreiçãoo dos Malês, formado, principalmente, por africanos e afrodescendentes de religião islâmica. A luta dos Malês em prol da abolição da escravatura foi importante para as lutas que vieram depois, mas a insurreição não foi vitoriosa naquele momento da história (1835). O fim da escravatura no Brasil ocorreu, legalmente, apenas em 1888.

A partir dessa informação, tendo como base o poema de Jarid Arraes e a canção de Chico Buarque (Texto II), marque a opção cujos versos, de ambos os textos, melhor indiquem a representação da expressão do racismo na sociedade brasileira:

  • A “Quando pinta em Copacabana / A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba / A caravana do Irajá, o comboio da Penha” e “Mas Luísa era guerreira / A rebelde sem igual / Fez ainda de sua casa / Como um quartel general”.
  • B “A gente ordeira e virtuosa que apela / Pra polícia despachar de volta / O populacho pra favela” e “O pai branco de Luís / O vendeu quando criança / Separando de sua mãe / Na racista podre herança / De ser branco dominante”.
  • C “É um dia de real grandeza, tudo azul / Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos / Um sol de torrar os miolos” e “Apesar de tudo isso / E de tudo que lutou / Essa mulher imponente / Muito se silenciou”.
  • D “Sol, a culpa deve ser do sol / Que bate na moleira, o sol / Que estoura as veias, o suor” e “Importante mencionar / Que foi mãe de Luís Gama / Poeta e abolicionista / De imensurável chama”.
  • E “Não há gente tão insana / Nem caravana do Arará / Não há, não há” e “Poeta e abolicionista / “De imensurável chama / E por ele foi citada / Respeitando sua fama”.