Quando o porteiro do Hotel Novo Mundo me entregou o embrulho, mesmo depois de reconhecer a letra do pai, não tive hesitação em segurá-lo como se fosse encomenda banal, um pacote contendo um livro, originais de algum autor que desejava opinião, recortes de jornais.
Pela flacidez, só podia ser coisa parecida. Mas o embrulho estava bem-feito, revelava meticulosidade nos pormenores, nas dobras do papel que se fechavam para trás, no acerto das pontas, na eficiência do barbante. Tudo isso mais a evidência da letra, da tinta roxa levaram-me a outros pacotes e embrulhos que havia recebido no passado, todos feitos, amarrados e enviados pelo pai.
E havia sobretudo o nó. Depois de tanto contemplá-lo à distância, com receio de tocá-lo, dele me aproximei não mais para lhe sentir o cheiro — ou os cheiros — mas para admirar o nó perfeito, justo, obra de arte de que só o pai era capaz.
Parece exagero louvar um nó, mas o pai era o primeiro a se vangloriar da arte de dar um nó. Lá está ele, bem no centro do embrulho, simétrico, sem uma laçada a mais ou a menos. Por experiências anteriores, sei que será impossível desatá-lo, como se fosse um nó qualquer. Precisarei de tesoura, de canivete, de faca. Ele só poderá ser cortado, jamais desfeito: assim era o nó que Ernesto Cony Filho, o pai, sabia e gostava de dar.
Ele se jactava de ter aprendido aquele tipo de nó nos tempos em que fora escoteiro — embora nunca tenha sido escoteiro. Foi fase passageira em sua imaginação, atribuía diversas habilidades que aprendera vida afora a tempos e funções inexistentes. Depois, sem que nada houvesse acontecido para mudar de opinião, esqueceu esta referência a um passado imaginário e adotou outra versão — igualmente improvável.
Passou a atribuir essas habilidades a outras circunstâncias e pessoas. No que dizia respeito ao nó, a versão escoteira foi transformada numa história meio enrolada: ele conhecera um marinheiro holandês no bar do Zica, na praça Mauá, no térreo do edifício de A Noite, reduto de uma certa boemia dos anos 30 e 40.
No Texto I, que pronome se refere ao “nó” (L. 15)?
- A “segurá-lo” (L. 3)
- B “contemplá-lo” (L. 15-16)
- C “dele me aproximei” (L. 16-17)
- D “para lhe sentir” (L. 17)
- E “Lá está ele” (L. 21-22)