Canção Final
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Canção Final.
Disponível em:<http://zip.net/bkksnp>
Ao afirmar que “até os deuses claudicam em nugas de aritméticas” (linhas 3 e 4), o eu lírico expressa:
- A uma explicação – uma medição equivocada que busca exagerar distâncias pela tentativa do eu lírico de se aproximar da superioridade divina.
- B uma ênfase – há uma elevação da referência divina de claudicar assuntos. Esse destaque da postura dos deuses é o mesmo dado ao sentimento do eu lírico.
- C uma mudança de assunto – para tirar o foco da admissão de um sentimento insuficiente, o eu lírico introduz características comuns aos deuses, causando, assim, uma impressão menos condenável do que causaria se mantivesse sua linha de raciocínio no âmbito do terreno.
- D uma justificativa – se até os deuses falham sobre assuntos de menor importância, meros humanos imperfeitos, como o eu lírico, podem apresentar defeitos no que diz respeito aos sentimentos.