Velocidade das imagens
Quem folheia um daqueles velhos álbuns de fotografias
logo nota que as pessoas fotografadas prepararam-se longamente
para o registro solene. As roupas são formais, os corpos
alinham-se em simetria, os rostos adotam uma expressão sisuda.
Cada foto corporifica um evento especial, grava um momento
que aspira à eternidade. Parece querer garantir a imortalidade
dos fotografados. Dificilmente alguém ri nessas fotos:
sobra gravidade, cerimônia, ou mesmo uma vaga melancolia.
Nada mais opostos a esse pretendido congelamento do
tempo do que a velocidade, o improviso e a multiplicação das
fotos de hoje, tiradas por meio de celulares. Todo mundo fotografa
tudo, vê o resultado, apaga fotos, tira outras, apaga, torna
a tirar. Intermináveis álbuns virtuais desaparecem a um toque
de dedo, e as pouquíssimas fotografias eventualmente salvas
testemunham não a severa imortalidade dos antigos, mas a
brincadeira instantânea dos modernos. As imagens não são feitas
para durar, mas para brilhar por segundos na minúscula tela
e desaparecer para sempre.
Cada época tem sua própria concepção de tempo e sua
própria forma de interpretá-lo em imagens. É curioso como em
nossa época, caracterizada pela profusão e velocidade das
imagens, estas se apresentem num torvelinho temporal que as
trata sem qualquer respeito. É como se a facilidade contemporânea
de produção e difusão de imagens também levasse a
crer que nenhuma delas merece durar mais que uma rápida
aparição.
(Bernardo Coutinho, inédito)
Está adequada a correlação entre os tempos e os modos verbais na frase:
- A Bastaria um toque de dedo e os intermináveis álbuns virtuais desaparecessem por completo.
- B Quem viesse a folhear um desses velhos álbuns não deixaria de notar a atitude cerimoniosa dos fotografados.
- C Dada a cerimônia que caracterizava os antigos registros fotográficos, não se encontraria quem esteja rindo naquelas fotos.
- D As imagens de hoje não seriam produzidas para permanecer, uma vez que fossem apagadas tão logo alguém as registrar.
- E É estranha a sensação que nos invade quando folheemos um velho álbum de fotos, cujas imagens pareceriam vir de outro universo. _______________________________________