Questão 2 Comentada - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IF-RR) - Professor de Ciências Humanas e Suas Tecnologias - IDECAN (2024)

Os pais encolhem com o tempo?


       Olho para o seu olhar. Busco perceber para onde mira. Confiro se sua passada está firme o bastante para não tropeçar na travessia. Não confio nos seus joelhos. Empresto os meus. Dou o braço, finco as solas no asfalto e caminho com ela, que antes era gigante, enorme, com a cabeça sempre nublada no alto das ideias e das preocupações.


          Agora, pequena, frágil, assim como o seu companheiro de décadas – ontem uma tempestade, hoje garoa fina acompanhada pelo som do rádio FM. São ambos estações transitórias; ela primavera, ele outono. Os pais encolhem com o tempo.


        “Cada vez mais eles estão parecendo crianças”, lê-se, ouve-se, vê-se por aí e por aqui tal comentário. Há quem o justifique com relatos concretos; ora, afinal já esquecem, os pais, de apagar a luz, de como manejar alguma ferramenta básica, de algumas palavras e seus significados, de manter o equilíbrio do corpo e a velocidade dos pensamentos, de aprender o novo que a cada dia se faz por meio de tecnologias, linguagem, imagens e afins.


       O comportamento começa a ser sempre infantilizado quando se apontam limitações e falta de preparo para viver com segurança no presente impaciente. Tudo sempre ligado ao corpo – e não à memória, lembrança, história –, como se ele, em absoluto, definisse a identidade social dos mais antigos. São corpos cansados, logo as mentes, os sentimentos e o saber também, pensam as crias, como se a corporalidade emoldurasse a grandeza da obra de uma vida toda, ainda vívida, importante ressaltar. Há quem veja por outra perspectiva menos limitante e mais constante o envelhecer dos seus e suas. O tempo cresce com os pais.


        Quando estudava sobre as concepções de pessoa e bases das identidades sociais de povos africanos pré-coloniais, deparei com a noção de senioridade dos iorubás. Em suma, o respeito às mais velhas não é fruto somente do cuidado com fragilidades físicas, em solidariedade – para não dizer piedade – com o corpo, a partir do corpo, como é frequentemente visto no ocidente. Esse respeito, que pode ser conhecido por meio de leituras não europeizadas a respeito das sociedades iorubanas, vem justamente da noção de que existe ancestralidade, sabedoria, liderança e que tais elementos não se resumem à visão ocidental de “poder, comando, governo, privilégio”.


      Muito pelo contrário, trata-se de responsabilidade com seu povo, um papel fundamental para a sobrevivência das gerações. Por essa razão – e tantas outras ligadas à senioridade – o respeito às antigas e aos antigos reflete a reverência à ancestralidade e à própria comunidade em que se vive. É um respeito que está para além do corpo “debilitado”. Trata-se de um respeito intangível, logo, indestrutível e atemporal.


       Sinto-me, por vezes, pai dos meus pais. Sou cada vez mais responsável por manter sua segurança, garantir que consigam se sustentar. E sinto-me bem, ainda que auto pressionado pela necessidade de renda, moradia, acesso à saúde, qualidade de vida que tanto falta. A realidade de quem é filho cuja herança foi o “Silva Santos” em muito é essa e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira senão quando conseguimos dar aos nossos “velhos” algo de que precisam ou, mais do que isso, algo que eles querem.


      Mãe, vó, pai, vô, se a cada ano se tornam mais “crianças”, o que nós, os ditos adultos – para eles eternos pivetes –, enxergamos diante de tal impressão? Prefiro eu o olhar de aprendizado perante quem do mundo sabe o essencial e não se curva diante das falsas complexidades impostas pela contemporaneidade.


     Se por “infantil” se limita apenas a percepção quanto a funções físicas de um corpo que está constantemente se transformando, perde-se a oportunidade única de compreender a passagem do tempo em seres que encolhem sem perder a grandeza. Seres que fazem do tempo o paradoxo de encolher para crescer definitivamente.

 
       Toda vez que dou meu braço para que mãe se apoie enquanto atravessamos a rua, também sou eu a me sentir seguro. De repente, duas crianças, em tempos diferentes, se arriscando a viver. 



(SANTOS, Veny. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/veny-santos/2024/04/os-pais-encolhem-com-o-tempo.shtml. Acesso em: 22 abr. 2024.)


A realidade de quem é filho cuja herança foi o “Silva Santos” em muito é essa e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira senão quando conseguimos dar aos nossos “velhos” algo de que precisam ou, mais do que isso, algo que eles querem.

Assinale a alternativa em que se tenha feito pontuação igualmente correta para o período acima.
  • A A realidade de quem é filho cuja herança foi o “Silva Santos” em muito é essa e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira, senão quando conseguimos dar aos nossos “velhos” algo de que precisam ou – mais do que isso –, algo que eles querem.
  • B A realidade de quem é filho, cuja herança foi o “Silva Santos”, em muito é essa, e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira, senão quando conseguimos dar aos nossos “velhos” algo de que precisam ou, mais do que isso, algo que eles querem.
  • C A realidade de quem é filho cuja herança foi o “Silva Santos” em muito é essa, e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira, senão quando conseguimos dar aos nossos “velhos” algo de que precisam ou – mais do que isso – algo que eles querem.
  • D A realidade de quem é filho cuja herança foi o “Silva Santos” em muito é essa e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira, senão, quando conseguimos dar, aos nossos “velhos”, algo de que precisam ou mais do que isso – algo que eles querem.
  • E A realidade de quem é filho, cuja herança foi o “Silva Santos”, em muito é essa, e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira senão quando conseguimos dar, aos nossos “velhos”, algo de que precisam ou – mais do que isso: algo que eles querem.

Gabarito comentado da Questão 2 - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IF-RR) - Professor de Ciências Humanas e Suas Tecnologias - IDECAN (2024)

Análise Técnica da Pontuação: A estrutura do período original é composta por duas orações principais coordenadas pela conjunção "e": "A realidade... em muito é essa" "a felicidade... algo que eles querem." A segunda oração contém uma locução conjuntiva adverbial ("senão quando") e uma expressão intercalada explicativa ("mais do que isso"). Pontos Críticos e Avaliação das Alternativas: 1. Uso da vírgula antes de "e" (primeira ocorrência): A vírgula antes do "e" que liga as duas orações pri...

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