Leia o texto para responder à questão.
Meu endereço: a calçada
Onde vou dormir hoje à noite? Essa tem sido a minha preocupação diária no último ano. Sou formada em letras – falo inglês e francês –, tenho duas filhas e fui casada com o pai delas por vinte anos. Uma série de acontecimentos, porém, me fez virar moradora de rua. E foi essa situação que me levou a trabalhar numa área da prefeitura paulistana que atende pessoas na Cracolândia.
Acabei na rua principalmente por causa dos problemas que eu tinha com meu ex-marido. Vivi um relacionamento abusivo. As agressões não eram físicas, mas verbais, psicológicas e, digamos assim, patrimoniais. Em qualquer discussão, ele me xingava e me ameaçava, dizendo que iria tirar minhas filhas. Eu me sentia presa ao casamento não só pelas meninas – que hoje têm 18 e 13 anos de idade –, mas também pelo fato de meu marido ser o provedor da casa.
Foi em dezembro que eu soube que havia uma vaga na Secretaria Municipal de Direitos Humanos para um cargo comissionado responsável pela intermediação entre os serviços públicos e os moradores de rua. Imaginava que não teria chance alguma, no entanto, me candidatei. Para minha surpresa, fui selecionada – e deparei com outra dificuldade. Não conseguiria abrir conta-salário em um banco, nem sequer começar no emprego se não comprovasse endereço. E eu não tinha. Inventei, então, um para mim: Avenida Duque de Caxias, 367. No complemento, inseri: “Calçada”. Depois de explicar a situação, acabei aceita.
Quando dei início ao meu trabalho, ganhei reconhecimento de estranhos. Minha família, porém, tem dificuldade de me aceitar e, em especial, ao meu novo companheiro. Mas estou em processo de transição e atualmente durmo em um centro de acolhida. Eu e o Fábio agora batalhamos para ter o nosso teto.
(Depoimento de Eliana Toscano dado a Jennifer Ann Thomas.
Veja, 19.06.2019. Adaptado)
O relato traz informações que permitem concluir que
- A o fato de ter-se tornado moradora de rua inicialmente foi considerado um problema de difícil resolução para Eliana, mas, após conseguir uma vaga na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, ela acabou encontrando um novo companheiro e foi aceita pela família.
- B a condição de moradora de rua facilitou a Eliana conseguir uma vaga na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, considerando-se que a situação de vulnerabilidade que ela vivia permitiu-lhe conhecer mais a fundo os problemas das pessoas.
- C o relacionamento abusivo vivido por Eliana a fez abandonar marido e filhas e desacreditar nas relações afetivas, tendo-lhe causado dificuldades para organizar sua vida profissional, sobretudo quando pleiteou uma vaga na Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
- D a situação de relacionamento abusivo levou Eliana a abandonar o casamento depois de vinte anos e tornar-se uma moradora de rua, o que ela pensava ser um impeditivo para conseguir uma vaga de trabalho na Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
- E Eliana, que contornou os problemas decorrentes do relacionamento abusivo de vinte anos, enfrenta dificuldades para ser aceita pela família que, além de condenar seu novo relacionamento, acha ruim que tenha conseguido uma vaga na Secretaria Municipal de Direitos Humanos.