Questão 5 Comentada - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) - Técnico - Radiologia - VUNESP (2024)

Mãe, acho que nunca escrevi uma carta para você. Procurei, sem sucesso, por alguma correspondência nossa na pasta onde guardo documentos passados. Tampouco fui capaz de encontrar mensagens tuas no meu celular. Não há, ao que parece, nenhum registro de comunicação entre nós.

Tenho, no entanto, um vídeo teu, gravado pelo celular em uma viagem a Miami anos atrás, quando a tecnologia daquele tipo de registro ainda era algo novo. Filmei você andando pelos corredores de uma loja de departamentos, pedindo que eu traduzisse os rótulos dos produtos, completamente absorta na procura por um hidratante que tua amiga havia recomendado, sem saber que aquele permaneceria um dos poucos vestígios mais recentes da tua existência.

Além disso, na minha caixa de entrada, encontrei uma única mensagem que recebi de você, enviada em setembro de 2011, pouco depois de eu ter deixado tua casa e me mudado para outra cidade, quando passei algumas semanas acometido por aquele tipo de melancolia trazida pelas grandes mudanças. No e-mail, você falava sobre solidão. Dizia que momentos como aquele podiam ser oportunos para nos conhecermos melhor, para descobrirmos o que desejamos, para aprender a lidar com as adversidades. Recomendava que eu fosse chorar no banheiro até que o nó na minha garganta fosse desatado e pedia que eu descansasse e confiasse que o dia seguinte, assim como todos os outros em frente, seria diferente.
Releio essa mensagem diversas vezes como um mantra, em busca de algum estado contemplativo em que eu possa sentir tua presença. Examino o endereço do remetente, a data e a hora do envio, na esperança de que desse conjunto de dados possa emanar alguma centelha do teu espírito. Apego-me a esses parcos registros, as últimas relíquias que guardo de você.


(Gabriel Abreu. Triste não é ao certo a palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 2023. Adaptado)


Na carta que escreve a sua mãe, o narrador

  • A relembra como era o cotidiano com ela, antes que ele tivesse ido embora de casa e passado a se sentir solitário.
  • B menciona os registros que restaram da existência dela, como o vídeo gravado por ele em uma loja e o e-mail escrito por ela para consolá-lo.
  • C questiona-se sobre os motivos que o levaram a não escrever cartas ou e-mails para ela enquanto era viva.
  • D analisa em detalhes o vídeo em que ela aparece em uma loja e arrepende-se de não ter dado a devida atenção a ela naquele momento.
  • E cita o e-mail que ela lhe enviara anos antes e que ele ainda não tinha lido, no qual ela demonstrava preocupação pelo bem-estar do filho.