O texto a seguir é uma adaptação do seu original de Rui Neves Carreira, intitulado A nova censura. Considere-o para responder à pergunta.
A nova censura
Vivemos em uma era em que já não é preciso mentir para enganar. Basta um título ambíguo e inflamado, e o estrago está feito. Nunca foi tão fácil manipular a percepção pública, nem tão perigoso ser superficial.
As redes sociais, antes pontes de diálogo, tornaram-se arenas de espetáculo. E não há espetáculo mais barato que a indignação fabricada. Quantas vezes lemos apenas o título? Quantas vezes compartilhamos algo que confirma o que queremos acreditar, sem saber se é verdade? Pesquisas mostram que a maioria dos usuários não passa do título. Não leem, não refletem, apenas reagem.
Mas não é apenas uma questão cultural ou de gosto. É política, e gravemente política. Essa nova realidade digital não afeta todos da mesma forma. Os discursos mais simples, mais radicais e inflamados são os que viajam mais rápido. O algoritmo adora a fúria, recompensa o exagero e não tem ética.
É um terreno fértil para os demagogos. Eles não precisam provar nada, basta serem compartilháveis. Enquanto isso, os discursos mais equilibrados, mais complexos e mais responsáveis morrem no silêncio, porque não cabem em um tweet, porque exigem tempo, porque não geram polêmica.
A democracia precisa de debate, mas esse novo palco não promove debate, promove combate. Estamos fabricando cidadãos de reação, não de reflexão. Cada clique apressado é uma moeda entregue a um sistema que desinforma mais do que informa.
Ler é um ato político, compreender é um ato de resistência. Só revalorizando a leitura e a escuta poderemos preservar a liberdade de pensar.
Fonte: Adaptado de: CARREIRA, Rui Neves. A nova censura é o título. Observador, Lisboa, 4 jun. 2025. Disponível em: https:// observador.pt/opiniao/a-nova-censura-e-o-titulo/. Acesso em: 18 out. 2025.
Considerando os recursos expressivos e o tom argumentativo empregados pelo autor, assinale a alternativa que expressa corretamente o ponto de vista defendido no texto sobre o papel das redes sociais na formação da opinião pública.
- A A expressão “vozes equilibradas morrem no silêncio” sugere que o excesso de moderação é a principal causa da falta de diálogo nas redes, defendendo o uso de discursos mais radicais como solução.
- B O uso de metáforas indica uma visão otimista do autor sobre o potencial educativo das redes e o fortalecimento da participação política.
- C As metáforas e repetições evidenciam o tom crítico do texto às redes e ao enfraquecimento do pensamento reflexivo quando afirmam que “o algoritmo adora a fúria” representa uma crítica política e ética à lógica reativa do ambiente digital.
- D As imagens de “democracia” e “debate” indiciam que o autor valoriza o ambiente virtual como espaço privilegiado de reflexão e diálogo, reconhecendo que ele fortalece a liberdade de expressão.