TEXTO 1
As Caravanas
Chico Buarque | 2017
É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará1 — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho,
é o buchicho é a charanga
Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné
Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
1 Parque Arará é uma comunidade popular localizada no bairro carioca de Benfica.
Assinale a alternativa com a frase que pode ser considerada uma síntese do que expressa essa bela letra de Chico Buarque.
- A “Quão maravilhosas são as pessoas que não conhecemos bem.” – Millôr Fernandes (1923-2012).
- B “Um homem não pode montar nas suas costas, a não ser que elas se inclinem.” – Martin Luther King (1929-1968).
- C “Aqueles que vivem em casas de vidro não deveriam atirar pedras.” – Geoffrey Chaucer (1343-1400).
- D “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” – Leon Tolstoi (1828-1910).
- E “Consciência é como a vesícula: a gente só se preocupa com ela quando dói.” – Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta, (1923-1968).