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A distância
Sempre defendi a tese de que foi a preguiça que trouxe a civilização. O que foi a invenção da roda senão o prenúncio da charrete e um triunfo do comodismo? Fomos a primeira espécie a criar um jeito de não ir, mas ser levada. A razão do hominídeo para deflagar o processo que resultou no controle remoto foi prática, a de atingir uma presa sem arriscar a ser mordido, ou almoçar sem ser almoçado. O primeiro lance do longo processo que terminou com o implante no cérebro foi a pedra arremessada. Depois vieram a lança, o estilingue, o arco e a flecha, a catapulta, as armas de fogo, o foguete intercontinental, o drone – todos os engenhos para evitar chegar perto.
A distância sempre foi um inimigo natural do Homem, ou pelo menos do Homem Preguiçoso. Vencê-la foi o nosso grande desafio intelectual, e agora se abre a possibilidade de subjugá-la só com o intelecto, desprezando os instrumentos que, da pedra à internet, nos ajudaram até aqui. Estamos simbolicamente de volta à savana primeva1 , pensando em como empurrar aquele mamute para dentro do fosso sem precisar ir lá, mas agora o pensamento basta. A vontade se realizará sozinha, sem as mãos, sem mais nada. A preguiça cumpriu sua missão histórica.
(Luis Fernando Veríssimo [org. Adriana Falcão e Isabel Falcão],
“A distância”. Ironias do tempo, 2018. Adaptado)
“A distância”. Ironias do tempo, 2018. Adaptado)
1 primeva: primitiva, dos tempos de outrora
De acordo com o ponto de vista do narrador, a preguiça
- A ampliou os horizontes humanos, já que inspirou o homem a buscar soluções para mantê-la.
- B foi intensamente combatida pelo ser humano que, desde tempos longínquos, gosta do perigo.
- C colocou o ser humano em situações de perigo, em especial nos momentos de obter a comida.
- D esteve sempre atrelada ao intelecto do homem, marcado pelo medo e pelo desinteresse em agir.
- E resultou da vontade do ser humano de viver de forma mais civilizada, ainda que sem comodismo.