TEXTO 1
A mercadoria alucinógena
Enquanto o consumidor imagina que é um ser racional, dotado de juízo e de bom senso, a publicidadena TV abandona progressivamente essa ilusão. Em vez de argumentar para a razão do telespectador,ela apela para as sensações, para as revelações mágicas mais impossíveis. A marca de chicletespromete transportar o freguês para um tal “mundo do sabor” e mostra o garoto-propaganda levitando emoutras esferas cósmicas. O adoçante faz surgirem do nada violinistas e guitarristas. O guaraná em lataprovoca visões amazônicas no seu bebedor urbano, que passa a enxergar um índio, com o rosto pintadode bravura, no que seria o pálido semblante de um taxista. Seria o tal refrigerante uma versão comercialdas beberagens do Santo Daime? Não, nada disso. São apenas os baratos astrais da nova tendênciada publicidade. Estamos na era das mercadorias alucinógenas. Imaginariamente alucinógenas.
É claro que ninguém há de acreditar que uma goma de mascar, um adoçante ou um guaranáproporcionem a transmigração das almas. Ninguém leva os comerciais alucinógenos ao pé da letra,mas cada vez mais gente se deixa seduzir por eles. É que o encanto das mercadorias não está nelas,mas fora delas — e a publicidade sabe disso muito bem. Ela sabe que esse encanto reside na relaçãoimaginária que ela, publicidade, fabrica entre a mercadoria e seu consumidor. Pode parecer um insultoà inteligência do telespectador, mas ele bem que gosta. É tudo mentira, mas é a maior viagem. A julgarpelo crescimento dessas campanhas, o público vibra ao ser tratado como quem se esgueira pelossupermercados à cata de alucinações.
Por isso, a publicidade se despe momentaneamente de sua alegada função cívica — a de informaro comprador para que ele exerça o seu direito de escolha consciente na hora da compra — e apenasoferece a felicidade etérea, irreal e imaterial, que nada tem a ver com as propriedades físicas (ouquímicas) do produto. A publicidade é a fábrica do gozo fictício — e este gozo é a grande mercadoria dosnossos tempos, confortavelmente escondida atrás das bugigangas oferecidas. Quanto ao consumidor,compra satisfeito a alucinação imaginária. Ele também está cercado de muito conforto, protegido pelaaparência de razão que todos fingem ser sua liberdade. Supremo fingimento. O consumidor não vaimorrer de overdose dessa droga. Ele só teme ser barrado nos portais eletrônicos do imenso festimpsicodélico. Morreria de frio e de abandono. Ele só teme passar um dia que seja longe de seu pequenogozo alucinado.
BUCCI, Eugênio. Veja. São Paulo, 29 abr.1998. In: ANTUNES, Irandé. Análise de textos:fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2010. p.80-1. [Fragmento]
Texto 2
Estabelecendo-se relação entre o texto 1 e o texto 2, constata-se que, esse cartum
- A descreve de que maneira o público consumidor aprecisa alucionógenos.
- B contradiz que estamos na era das mercadorias imaginariamente alucinógenas.
- C comprova que o encanto das mercadorias não está propriamente nelas, mas fora delas.
- D ratifica que o consumidor teme ser barrado em portais eletrônicos do imenso festim psicodélico.