Questão 18 Comentada - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) - Administrador - FCC (2010)

Cultura de massa e cultura popular

O poder econômico expansivo dos meios de
comunicação parece ter abolido, em vários momentos e
lugares, as manifestações da cultura popular, reduzindo-as à
função de folclore para turismo. Tal é a penetração de certos
programas de rádio e TV junto às classes pobres, tal é a
aparência de modernização que cobre a vida do povo em todo o
território brasileiro, que, à primeira vista, parece não ter sobrado
mais nenhum espaço próprio para os modos de ser, pensar e
falar, em suma, viver, tradicionais e populares.

A cultura de massa entra na casa do caboclo e do
trabalhador da periferia, ocupando-lhe as horas de lazer em que
poderia desenvolver alguma forma criativa de autoexpressão;
eis o seu primeiro tento. Em outro plano, a cultura de massa
aproveita-se dos aspectos diferenciados da vida popular e os
explora sob a categoria de reportagem popularesca e de
turismo. O vampirismo é assim duplo e crescente; destrói-se por
dentro o tempo próprio da cultura popular e exibe-se, para
consumo do telespectador, o que restou desse tempo, no
artesanato, nas festas, nos ritos. Poderíamos, aqui, configurar
com mais clareza uma relação de aparelhos econômicos
industriais e comerciais que exploram, e a cultura popular, que é
explorada. Não se pode, de resto, fugir à luta fundamental: é o
capital à procura de matéria-prima e de mão de obra para
manipular, elaborar e vender. A macumba na televisão, a escola
de samba no Carnaval estipendiado para o turista, são
exemplos de conhecimento geral.

No entanto, a dialética é uma verdade mais séria do que
supõe a nossa vã filosofia. A exploração, o uso abusivo que a
cultura de massa faz das manifestações populares não foi ainda
capaz de interromper para sempre o dinamismo lento, mas
seguro e poderoso da vida arcaico-popular, que se reproduz
quase organicamente em microescalas, no interior da rede
familiar e comunitária, apoiada pela socialização do parentesco,
do vicinato e dos grupos religiosos.

(Alfredo Bosi. Dialética da colonização. S. Paulo: Companhia
das Letras, 1992, pp. 328-29)



Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:

  • A O autor considera que os vínculos estabelecidos nas relações entre grupos sociais, firmadas pelo parentesco ou pelo sentimento comunitário, ainda resistem à força dos meios de comunicação de massa.
  • B Entende o autor de que, não obstante hajam fortes pressões dos meios de comunicação de massa sobre elas, as relações autenticamente populares podem resistir à tão pesada influência.
  • C Graças a aqueles laços estabelecidos em relações de parentesco ou mesmo comunitárias, entre grupos sociais mais estritos, a cultura popular ainda oferece sua firme capacidade de resistência.
  • D Relações de parentesco e laços comunitários, não obstante a força que caracterizam os meios de comunicação de massa, ainda lhes resistem, preservando-se essa forma de cultura popular.
  • E A cultura popular, ingratamente pressionada pela cultura de massa, manifesta-se ainda sob a forma de pequenos grupos cujos valores autênticos persiste o sentimento comunitário.