Instruções para dar corda no relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe‑o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre‑o depressa a seu pulso, deixe‑o bater em liberdade, imite‑o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
CORTÁZAR, Júlio. Histórias de Cronópios e de famas. São Paulo:
Editora Civilização Brasileira, 1994, p. 33‑34 (com adaptações).
No período “e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância”, é correto afirmar que a palavra “que”
- A introduz uma oração de valor adjetivo restritivo.
- B introduz uma oração de valor adjetivo explicativo.
- C introduz uma oração que é parte integrante da oração principal e possui valor de sujeito.
- D introduz uma oração que é parte integrante da oração principal e possui valor de objeto direto.
- E introduz uma oração que funciona como um adjunto da oração principal, com valor adverbial.