Só se pode entender a montagem de uma instituição do porte do escravismo moderno atentando-se para a articulação entre a criação de colônias no ultramar e seu funcionamento sob a forma de grandes unidades produtoras voltadas para o mercado externo. A monocultura em larga escala exigia um grande contingente de trabalhadores que deveriam se submeter a uma rotina espinhosa, sem ter nem lucro nem motivação pessoal. Recriou-se, desse modo, a escravidão em novas bases, com a utilização de mão de obra compulsória e que exigia − ao menos teoricamente − trabalhadores de todo alienados de sua origem, liberdade e produção. Tudo deveria escapar à consciência e ao arbítrio desse produtor direto.
Da parte dos contratantes, a ideologia que se conformava procurava desenhar o trabalho nos trópicos como um fardo, um sofrimento, uma punição e uma pena para ambos os lados: senhores e escravos. O discurso proferido pela Igreja e pelos proprietários entendia tal trabalho árduo como uma atividade disciplinadora e civilizadora. Havia inclusive manuais − verdadeiros modelos de aplicação de sevícias pedagógicas, punitivas e exemplares − que instruíam, didaticamente, os fazendeiros sobre como submeter os escravizados e transformá-los em trabalhadores obedientes. Um exemplo regular era o famoso quebra-negro, castigo muito utilizado no Brasil para educar escravos novos ou recémadquiridos e que, por meio da chibatada pública e outras sevícias, ensinava os cativos a sempre olhar para o chão na presença de qualquer autoridade.
Segundo o padre Jorge Benci, que esteve no país no final dos 1600, a razão de submeter os escravos era "para que não se façam insolentes, e para que não busquem traças e modos com que se livrem da sujeição de seu senhor, fazendo-se rebeldes e indômitos". Servindo-se de um discurso paternalista e também religioso − no sentido da promessa de redenção futura −, o sistema era explicado a partir da necessidade do uso exclusivo da coação
O excerto e a norma-padrão legitimam o seguinte comentário sobre o acima transcrito:
- A O que está entre aspas corresponde à fala do padre, mas não por sua própria voz: as autoras é que narram e comentam o que ele disse.
- B A retirada da vírgula depois da palavra Benci provoca alteração tal que tornaria a frase ilógica, no caso de o padre não ter um homônimo, ou mais.
- C Em Segundo o padre Jorge Benci, a palavra destacada está empregada com o mesmo valor que se observa em "Entregavam as senhas segundo as pessoas iam se apresentando".
- D A substituição do que se destaca em com que se livrem da sujeição de seu senhor por "com o qual" mantém a correção e o sentido originais.
- E A vírgula depois de insolentes é obrigatória, dada a independência de sentido entre os segmentos conectados pela palavra e.