Questão 2 Comentada - Prefeitura de Ipira - Assistente Social - Prova Instituto Fênix (2025)

TEXTO PARA A QUESTÃO.


Eu vejo você


Pequenas vasilhas de madeira antiga, adornadas com flores pintadas e já desbotadas repousam, umas sobre as outras. As cores esmaecidas alternam-se ao que outrora já foram verde, vermelho ou branco. Têm o tamanho de um vaso pequeno de flores, quadrado. Passam quase anônimas em meio a estátuas de budas e divindades hindus e móveis orientais pintados a mão.


A senhora que atende no antiquário explica que as peças serviam como medida de arroz na Mongólia e, agora, tentam novas incursões em lares ocidentais como itens decorativos.


Gosto de pensar em objetos para além da funcionalidade. Em como colheres ou sapatos de bebê em um quadro adquirem outro significado com o passar dos anos. Em como uma máquina de fotos ou um rádio antigo podem contar histórias mesmo sem funcionar há décadas.


Se até coisas têm essa premissa, imaginem como seria interessante se as pessoas fossem vistas sem levar em conta a utilidade — aqui, aproveito para lembrar a declaração de amor do povo Na’vi, de Pandora, no filme Avatar, que era justamente “eu vejo você”. Talvez seja mesmo uma das formas mais bonitas de se conectar com alguém: fazer alusão ao presente e ao que a criatura é. Parece uma obviedade, mas em um mundo mediado por imagens manipuláveis, isso está cada vez mais raro.


Gosto de pensar que objetos insignificantes para um têm muito valor para outro. Como os quadros do sagrado coração que adornam casas das nonnas, como o desenho emoldurado dos filhos, como o instrumento musical ou a ferramenta que pertenceu a um antepassado...


Só quem olha para a pessoa que está diante de si consegue perceber valor naquilo que faz o coração dela ecoar.


Transformar um medidor de arroz mongol em vaso é fácil demais. Difícil é permitir que alguém nos veja e nos aceite exatamente do jeito que a gente é, mesmo em um salão repleto de móveis suntuosos e atrativos por todos os lados.


Autora: Tríssia Ordovás Sartori - GZH (adaptado).



Ao citar a saudação do povo Na’vi — “eu vejo você”, do filme Avatar —, a autora estabelece uma relação entre o olhar que reconhece a existência do outro e a raridade dessa atitude na contemporaneidade. Nessa passagem, o texto sugere que:

  • A A linguagem cinematográfica é a única capaz de traduzir a dimensão simbólica das relações humanas na era digital.
  • B A empatia e o reconhecimento do outro como sujeito autêntico se tornam gestos de resistência num mundo dominado pela superficialidade e pela aparência.
  • C A autora utiliza a referência a Avatar apenas como ilustração poética, sem relação direta com a crítica à cultura da imagem.
  • D O ato de “ver” o outro pressupõe apenas observação estética e distanciamento emocional, como ocorre na arte visual moderna.