O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Uma Dose
Dois anos, quase três, e a memória insiste em voltar quando mais tento enterrá-la. Ela desperta logo cedo, nos gestos automáticos da manhã, até que um som familiar reabre a ferida quase cicatrizada. O "bom dia" ritmado da padaria, marcado por um sotaque conhecido, desencadeia outros sinais e faz tudo desaguar.
No ônibus lotado, os cumprimentos se acumulam: do motorista, do cobrador, das senhoras a caminho da igreja. Ainda é cedo, seis da manhã, Estação Vila União. Ali, quem nos recebe diariamente é a música que sai da velha caixinha de som do funcionário da limpeza, capaz de lavar lembranças e aliviar a saudade que nem a chamada de vídeo resolve.
Quando o som some, resta o silêncio misturado de "oxe" e "mano", a bandeira do Sport na janela, a jaca na budega. O homem também migrou, como nós. Fica a saudade das viagens, das cantorias no carro, do "vai Safadão" ecoando rumo à praia, com a prima.
QUEIROZ, Danilo Roberto Silva. Uma dose. In: MALULY, Luciano Victor Barros et al. (org.). Crônicas para ler e ouvir [recurso eletrônico]. Número 4. São Paulo: ECA-USP, 2024. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 379/1256/4887 . Acesso em: 15 dez. 2025.
A partir da leitura atenta do texto "Uma Dose", é possível observar uma estrutura narrativa que, embora breve, articula diferentes níveis de temporalidade e espacialidade, evocando sensações, memórias e elementos da cultura regional brasileira. Considerando os mecanismos discursivos empregados, os efeitos de sentido gerados e os recursos linguístico-textuais utilizados, assinale a alternativa que apresenta a interpretação mais adequada ao funcionamento dos elementos implícitos e à lógica interna do texto.
- A A voz narrativa distancia-se emocionalmente do conteúdo relatado, assumindo postura analítica ao resgatar lembranças do passado, numa tentativa de compreender racionalmente os traumas associados à migração e ao luto.
- B A estrutura narrativa do texto pauta-se na linearidade cronológica, com encadeamento progressivo dos eventos que conduzem a um clímax emocional associado ao rompimento com a cultura de origem e à aceitação de um novo ambiente sociolinguístico.
- C A presença de regionalismos linguísticos e marcas culturais no texto cumpre função meramente estilística e descritiva, não interferindo na progressão temática nem contribuindo significativamente para a construção do enredo ou da memória afetiva.
- D O texto revela, por meio da justaposição entre cenas cotidianas e fragmentos de memória, um processo de evocação afetiva que se ancora em elementos culturais e sensoriais, permitindo à narradora reconstruir a presença ausente não pela explicitação direta da perda, mas pela ativação de um tempo psicológico que rompe com a linearidade cronológica.