TEXTO 5
A vitória da ambiguidade: a confusão de sentidos compromete o entendimento das frases, mas bem trabalhada pode ser uma útil ferramenta expressiva.
A ordem de elementos sublinhados nos enunciados que seguem pode, por um lado, comprometer os autores que os produzem e, por outro, confundir as pessoas que os leem:
“O jóquei desceu do cavalo com um sorriso”. “
Os guardas prenderam o ladrão correndo em direção à estação rodoviária”.
Somente em fábulas, histórias em quadrinhos ou filmes animados existem cavalos que sorriem e até choram ou conversam. Quem sorriu foi o felizardo do jóquei cujo cavalo chegou antes dos outros equinos.
A confusão é facilmente resolvida se o conteúdo sublinhado antecede o sujeito “jóquei”.[…]
Com respeito à segunda oração, quem está correndo? O ladrão? Ou os guardas? Se fossem os guardas, bastaria modificar a ordem e acrescentar vírgulas:
“Os guardas, correndo em direção à estação rodoviária, prenderam o ladrão”.
Todavia, se fosse o caso do ladrão em fuga, bastaria o seguinte ajuste:
“Os guardas prenderam o ladrão que estava correndo em direção à estação rodoviária”.
As duas orações exemplificam a ambiguidade acidental devido à falta de planejamento ou ao açodamento no momento de escrever.
[…]
Mas a noção de ambiguidade é bem mais complexa, pois existe a ambiguidade natural (inerente ao sistema dos idiomas). Nem todos os usuários de diferentes idiomas sabem que as línguas apresentam instâncias de ambiguidade arraigadas na estrutura léxica e gramatical.
Com respeito ao adjetivo “alto”, no enunciado “José está alto”, temos um caso de ambiguidade lexical que facilmente é desambiguizado com a contextualização:
“José tem somente dez anos, mas está (é) alto para sua idade”.
Ou:
“José está alto porque tomou umas e outras na festa”.
[…] A ambiguidade nem sempre é um problema para os usuários de um idioma quando as interações linguísticas ocorrem na fala do dia a dia. Sempre estamos num contexto ou numasituação real, como observa o literário Stanley Fish. Os que interagem estão cientes do contexto.
Por exemplo, se Fulano se encontra com o amigo Beltrano na rua e Fulano comenta: “Vi sua foto na revista”, Beltrano sabe que “sua” se refere a ele mesmo porque os dois amigos compartilham conhecimento sobre o motivo da publicação da fotografia. Ou a reportagem da revista tirou uma fotografia de Beltrano (ganhou uma bolada na loteria!) ou Beltrano é fotógrafo profissional e funcionário do referido veículo de comunicação (e ele tirou uma fotografia de um político colocando dinheiro na cueca ou nos bolsos!).
Daí se vê que, na fala, existe a possibilidade de colaboração entre os interlocutores Beltrano e Fulano. Tal colaboração não é possível na escrita, dada a distância de tempo e espaço entre o enunciador e seus eventuais receptores. Por esse motivo, os textos escritos precisam ser cuidadosamente revisados pelos responsáveis, para evitar ambiguidade que não foi planejada.
[…]
Fonte: John Robert Schmitz – Revista Língua Portuguesa, ano 8, nº 87, 2013, p. 25
Com base no texto acima, assinale a única alternativa que contém uma frase que caracteriza uma ambiguidade acidental, de acordo com a definição do autor:
- A Pai e filho de 6 anos morrem afogados no Rio Doce.
- B “Olhe, o dono da loja está conversando com seu irmão” – disse apontando para eles.
- C Além das rodovias, radares precisam ganhar as ruas (manchete do jornal A Gazeta).
- D Ajudei minha irmã exausta no fim do dia.
- E Animal é resgatado de deserto em bicicleta adaptada.