Questão 2 Comentada - Prefeitura de Rodrigues Alves-2 - Assistente Social - Prova DECORP (2025)

Leia o texto e responda a questão.


“Grande Sertão: Veredas” (1956)


Não sou nada. Nunca fui. Não posso querer ser. Riobaldo falava assim, cavalgando em dia de sol raso, quando o calor faz tudo cintilar feito lente de aumento sobre formigueiro. Areia chiava sob o casco, e o Rio das Velhas, lá adiante, corria avarento, escondendo-se em veredas.

E, nesse remanso de palavras, lembrava Diadorim: “— Viver é muito perigoso…Porque ainda não se sabe.” Dizia e deixava ficar a frase, pairando, como beija-flor em flor vermelha. Riobaldo repetia para dentro, degustando cada sílaba, sentindo a faca da incerteza rasgar miúdo o couro do coração. Pois, se o viver é risco, então o amor — sobretudo aquele que não ousa dizer nome — há de ser fogueira sem noite de São João, ardendo fora de tempo, clandestina.

O sol subia. Do arrebol distante vinham brados de vaqueiros, bois berravam, e tudo soava, ao jagunço, presságio. Trazia nas ancas cartucheira cheia, na lembrança a voz de Joca Ramiro, no peito promessa de pacto possível: “Fazer acordo com o Demo? E por que não, se Deus, às vezes, demora?” Esse pensamento, que era mais tempestade que maré, rodopiava-lhe no juízo, complicando palavras simples — coragem, honra, destino.

Enquanto o cavalo respirava ofegante, Riobaldo parou na sombra agreste de um angico, ajeitou o rifle no ombro e cuspiu o pó que lhe colava ao palato. Naquele ínterim de silêncio quente, pareceu-lhe ouvir o estrépito antigo de espingardas, o grito de Hermógenes e a derradeira visão de Joca Ramiro caindo, lento, sobre o chão de pedra. Teve vontade de chorar, mas o rosto ficou seco: jagunço não molha terra com lágrima — terra é de sangue — ensinaram-lhe.

— Diadorim… — sussurrou.

A palavra saiu fina, quase pena de passarinho. Sentiu, então, que a vida toda se curvaria, daí em diante, àquele nome. E compreendeu, como numa faísca, que viver perigoso era também viver pleno de sentido: o risco é que tempera o viver.

Tocou de rédea, rumou em frente. No céu, urubu fazia círculo. No chão, formiga carregava folha dez vezes o corpo. Riobaldo pensou que, talvez, um dia, também ele carregasse fardo maior que o peito: a dúvida de ter feito, ou não, pacto com o Mefistófeles dos ermos.


Fonte: GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. (Adaptado)


O recurso de repetir a máxima “viver é muito perigoso” confere ao texto principalmente o efeito de:

  • A Estruturar o monólogo interior em torno da incerteza que norteia o enredo.
  • B Denunciar falhas linguísticas do narrador.
  • C Suavizar o tom dramático da narrativa jagunça.
  • D Transformar o romance em tratado filosófico sistemático.

Gabarito comentado da Questão 2 - Prefeitura de Rodrigues Alves-2 - Assistente Social - Prova DECORP (2025)

O gabarito indica a alternativa A como correta, e a justificativa é coerente com a análise do texto. A repetição da máxima "viver é muito perigoso" funciona como um eixo temático no monólogo interior de Riobaldo, reforçando a incerteza e a reflexão existencial que permeiam a narrativa. Esse recurso: Organiza o fluxo de pensamento do personagem, destacando sua angústia e dúvidas. Vincula-se ao conflito central da obra (o pacto com o demônio, o amor não declarado, a violência jagunça). ...

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