Questão 5 Comentada - Universidade de São Paulo (USP) - Técnico de Laboratório (Prótese Dentária) Edital nº 50 - FUVEST (2025)

No momento em que morreu, Joaquim escrevia um livro que nunca me mostrou. Meu pai, meu estranho. Ouvi falar da sua obra inacabada desde criança. Onde guardar a dança da mão direita do escritor, enquanto projetou o romance, toda a vida adulta, o pontilhado de gestos abortados, os rascunhos-fantasma, tentativas, planos, ou seriam sonhos, a energia despendida, o fogo de que irradiavam ideias que jamais viram a luz? O que restou foi o vazio. Mas talvez o vazio seja um lugar - uma cidade - repleto de avenidas. Algures, livro sobreviverá, aberto, como sobrevivem as nossas ideias, anseios, as nossas mistificações, literatura desconhecida, minha tradição. Ninguém leu o livro que dizia escrever. O escritor morreu, levou-o. Não é possível que a morte do meu Pai tenha matado o livro, que era a própria vida. O sonho dessa obra foi a herança que me deixou. Como parar de sonhá-lo, se jamais o li? Imagino a biblioteca dos livros por escrever.

Adaptado de Djaimilia Pereira de Almeida. O livro do meu pai. Todavia. 2025.


Considerando a organização argumentativa, o texto é construído a partir da

  • A comprovação material da existência do manuscrito, com base em indícios concretos deixados pelo pai.
  • B tensão entre ausência e permanência, expressa na evocação do livro inacabado como herança simbólica.
  • C recusa afetiva em reconhecer a importância do pai, centrando-se em seu silêncio literário.
  • D progressão lógica e objetiva da narrativa sobre o processo criativo do escritor falecido.
  • E reconstrução factual da memória do pai, com foco na materialidade de sua produção textual.