Leia o texto a seguir para responder a questão.
Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade. Não é o silêncio fértil da pesquisa em gestação, nem a pausa necessária de uma biblioteca que guarda segredos. É um silêncio saturado de ruídos artificiais: o clique incessante de formulários digitais, o acúmulo de PDFs em repositórios, a sucessão interminável de congressos que repetem fórmulas gastas. Publica-se como nunca; pensa-se como nunca tão pouco. O que antes era obra transformou-se em produto; o que antes era criação tornou-se estatística.
Sob o neoliberalismo, a universidade deixou de ser refúgio dos “excêntricos” e transformou-se em fábrica de autopromoção. O pesquisador, em vez de intelectual público, converteu-se em gestor de si mesmo. Administra sua vida como uma empresa, contabiliza citações como moedas, transforma relatórios em capital simbólico. Não há mais tempo para o fôlego longo de uma obra; o tempo agora é o do ciclo quadrienal, do edital, da métrica.
(...) Hoje, o pesquisador escreve sem se reconhecer no que publica; fala sem ser ouvido; produz sem dialogar. É o trabalho alienado em sua forma acadêmica: a teoria como mercadoria, o artigo como moeda, o currículo como mercadoria-espelho.
E, no entanto, nem sempre foi assim. No passado, havia frestas que poderiam ser mais exploradas do que atualmente. Florestan Fernandes dedicava anos à elaboração de livros que não eram apenas reflexões sociológicas, mas instrumentos de intervenção histórica. Miguel Nicolelis, com seus projetos de grande fôlego, recusa a lógica imediatista da produtividade compulsiva, apostando na ciência como um agente de transformação social. Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, com suas pesquisas de longa duração e campanhas de saúde pública, lembravam que a ciência é antes de tudo compromisso com a vida social, e não corrida por estatísticas. Cada um deles habita, hoje, o lugar da quase impossibilidade: seriam punidos pelo tempo que ousaram dedicar à obra, seriam penalizados por publicar “pouco”, seriam corrigidos por não obedecerem ao formato imposto pelas métricas. (...)
TELES, Gabriel. O deserto da imaginação e as ruínas da universidade
neoliberal. Le Monde Diplomatique. 27 ago. 2025. Disponível em
<https://diplomatique.org.br/o-deserto-da-imaginacao-e-as-ruinas-da
universidade-neoliberal/>.
Assinale a alternativa que apresenta uma ideia em acordo com o conteúdo do texto acima.
- A O meio acadêmico atual está mais envolvido em apresentar dados estatísticos do que em produzir conhecimento de base, devido às posturas individuais dos pesquisadores
- B O meio acadêmico atual está mais envolvido em apresentar dados estatísticos do que em produzir conhecimento de base, devido às exigências do neoliberalismo.
- C A universidade, como detentora da produção do conhecimento, das origens até a atualidade, vem se desapegando cada vez mais da burocracia que envolve o saber.
- D As universidades, nas modernas sociedades neoliberais, são os refúgios de pesquisadores excêntricos, preocupados exclusivamente com o saber.
- E As sociedades neoliberais, através das universidades, são os refúgios de pesquisadores excêntricos, preocupados exclusivamente com o saber.