Questão 5 Comentada - Prefeitura de Macapá-2 - Guarda Civil Municipal - Instituto Ágata (2026)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

A Escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando. [...]

(ASSIS, Machado.In: Obra completa, 1992, vol. II, p. 659)


No excerto analisado, o narrador descreve instrumentos de punição utilizados na escravidão, recorrendo a comentários irônicos e a convites diretos ao leitor, como em “Imaginai uma coleira grossa”. Considerando esses procedimentos, assinale a alternativa que caracteriza o efeito produzido pela combinação entre o tipo de narrador e suas escolhas discursivas.

  • A Mesmo narrando em terceira pessoa com predominância da linguagem culta, o narrador usa ironia e fala diretamente ao leitor para envolvê-lo na cena, o que conduz à percepção crítica da crueldade sem explicitar a condenação.
  • B A interpelação direta ao leitor revela um narrador emocionalmente envolvido, cujo objetivo é comover o público e diminuir a distância entre sua voz e os fatos narrados.
  • C A presença de comentários explicativos e convites à visualização aproxima o leitor apenas do contexto histórico, sem revelar posicionamento crítico por parte do narrador.
  • D O uso da terceira pessoa impede qualquer aproximação entre narrador e leitor, resultando em um relato estritamente objetivo e desprovido de marcas avaliativas.
  • E A estratégia de ironizar o sistema escravista compromete a credibilidade do narrador, que passa a adotar um tom abertamente panfletário, distanciando-se do leitor e enfraquecendo a narrativa.