Questão 3 Comentada - Prefeitura de Itá-2 - Médico - AMAUC (2026)

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


O mito da força de vontade — e por que algumas pessoas têm mais dificuldade para perder peso


A ideia de que a obesidade resulta apenas de falta de força de vontade é amplamente difundida no debate público, inclusive entre profissionais de saúde. Comentários como "basta comer menos" ou "é uma questão de responsabilidade pessoal" revelam uma visão simplificada de um fenômeno complexo. Um estudo internacional publicado na revista The Lancet mostrou que oito em cada dez pessoas acreditam que a obesidade poderia ser totalmente evitada apenas por escolhas individuais de estilo de vida.

Especialistas contestam essa interpretação. A nutricionista Bini Suresh afirma que acompanha pacientes altamente motivados que, apesar do esforço contínuo, enfrentam grandes dificuldades para controlar o peso. Para a médica Kim Boyd, o foco exclusivo em autocontrole ignora fatores biológicos, psicológicos e ambientais que influenciam o ganho de peso, tornando injusta a ideia de que todos competem em condições iguais.

Pesquisas indicam que a genética desempenha papel central na obesidade. Genes influenciam os circuitos cerebrais responsáveis pela fome, pela saciedade e pelo metabolismo, fazendo com que algumas pessoas sintam mais fome ou armazenem mais gordura consumindo a mesma quantidade de alimento que outras. O gene MC4R, por exemplo, está alterado em parte significativa da população mundial e está associado à alimentação excessiva e à menor saciedade. Medicamentos recentes para perda de peso atuam justamente nesses mecanismos biológicos.

Outro conceito relevante é o do "set point", segundo o qual o cérebro tende a defender uma faixa de peso considerada ideal. Quando o peso cai abaixo desse ponto, o organismo reage, aumentando a fome e reduzindo o metabolismo, o que ajuda a explicar o efeito sanfona das dietas. Hormônios como a leptina participam desse processo, mas seu funcionamento pode ser comprometido em ambientes alimentares ricos em ultraprocessados.

O aumento da obesidade também está ligado a fatores ambientais. A ampla oferta de alimentos calóricos, o marketing agressivo, o aumento das porções e a dificuldade de praticar atividade física criam um ambiente obesogênico, no qual até pessoas motivadas têm dificuldade para manter um peso saudável. Medidas governamentais, como restrições à publicidade de alimentos não saudáveis, são vistas por alguns como necessárias, embora consideradas insuficientes por outros.

Nesse cenário, especialistas defendem uma abordagem mais equilibrada. A força de vontade tem seu papel, mas não é constante nem suficiente por si só. Estratégias flexíveis, apoio psicológico, informação científica e mudanças sustentáveis no estilo de vida aumentam as chances de sucesso. A obesidade, portanto, não é falha moral, mas uma condição crônica e multifatorial, que exige compreensão e políticas baseadas em evidências, e não apenas julgamentos sobre disciplina pessoal.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj4l9wg4vlxo.adaptado.


O texto analisa a crítica à ideia de que a obesidade decorre exclusivamente de escolhas individuais, enfatizando a interação entre fatores biológicos, genéticos e ambientais na dificuldade de perder peso.

De acordo com o texto-base, é correto afirmar que:

  • A A principal causa da obesidade contemporânea reside na falta de disciplina individual, já que os fatores biológicos exercem influência secundária e pouco relevante no ganho de peso corporal.
  • B O texto defende que a obesidade deve ser interpretada como falha moral do indivíduo, sendo a disciplina pessoal o principal critério de avaliação dessa condição.
  • C O conceito de "set point" indica que o peso corporal se ajusta livremente às escolhas individuais, sem que o organismo reaja biologicamente às tentativas de perda de peso.
  • D As políticas públicas mencionadas no texto conseguiram eliminar o problema da obesidade ao restringirem a publicidade de alimentos não saudáveis.
  • E A obesidade não se explica apenas pela força de vontade, pois envolve fatores genéticos, biológicos e ambientais que interferem no controle do peso.