Questão 1 Comentada - Prefeitura de Jaguaruna-2 - Analista de Controle Interno - Unesc (2025)

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Encontro de memórias


Existem dois dias em que, para mim, a terra parou. O primeiro aconteceu quando eu tinha cerca de sete anos, em um domingo comum. Meu pai montava seu pequeno ritual musical: carregava uma cadeira, espalhava as revistas de cifras na cama e deixava que os acordes preenchessem a casa. Enquanto eu brincava no chão, a voz de Raul Seixas criava um refúgio íntimo, um instante que meu mundo interno decidiu guardar como lugar de paz.

O segundo dia em que a terra parou veio doze anos depois. Não foi um dia só, mas uma sequência de dias em que quase todos decidiram — ou foram obrigados — a permanecer em casa. O empregado não saiu porque o patrão também não estava lá; o aluno não foi à escola porque o professor não o esperava; a rotina inteira foi suspensa por algo que parou o planeta, mesmo que não por vontade própria.

Assim como no primeiro dia, Raul também estava presente. As mesmas revistas antigas, gastas pelo uso, continuavam guardadas na estante, preservando uma memória afetiva que atravessou o tempo. E cada vez que seus versos ecoavam, aquele recanto infantil voltava a se mover dentro de mim.

Hoje as revistas quase não saem do lugar e acumulam poeira, mas continuam guardando meus dois dias. Raul anunciava o segundo, mas é ao primeiro que retorno sempre que escuto alguém cantar sobre "o dia em que a Terra parou". É ali que a memória repousa — entre acordes simples e a sensação de que, por um instante, tudo realmente ficou imóvel.

Texto Adaptado


LIMA, Natália Milena Alexandre. Encontro de memórias. In: MALULY, Luciano Victor Barros et al. (org.). Crônicas para ler e ouvir [recurso eletrônico]. São Paulo: ECA-USP, 2021. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/7 30/648/2404 . Acesso em: 21 nov. 2025.


No trecho "O segundo dia em que a terra parou veio doze anos depois. Não foi um dia só, mas uma sequência de dias em que quase todos decidiram — ou foram obrigados — a permanecer em casa.", é possível aplicar diferentes operações sintáticas (deslocamento, substituição, modificação e correção), sem comprometer a correção gramatical e o sentido original. Assinale a alternativa em que a operação aplicada está correta, de acordo com os princípios normativos da gramática do português.

  • A A substituição de "a permanecer" por "permanecerem" em "obrigados a permanecer em casa" é preferível do ponto de vista gramatical, pois corrige uma impropriedade sintática relativa à regência nominal com preposição inadequada.
  • B A correção da oração "em que a terra parou" para "onde a terra parou" está de acordo com a norma-padrão, uma vez que o uso de "onde" é amplamente aceito para orações relativas que envolvam eventos temporais.
  • C O deslocamento da oração adverbial de tempo para o início do enunciado — "Doze anos depois, veio o segundo dia em que a terra parou." — preserva a correção gramatical e contribui para a progressão temática sem prejuízo da coesão ou da clareza.
  • D A inversão de "não foi um dia só, mas uma sequência de dias" para "foi uma sequência de dias, e não um dia só" fere a progressão informacional, pois viola a ordem lógica exigida pela estrutura sintática do conectivo "mas".
  • E A modificação da expressão "quase todos decidiram — ou foram obrigados — a permanecer" para "decidiram quase todos ou foram obrigados a permanecer" intensifica o paralelismo sintático e é recomendada por reforçar a estrutura simétrica da frase.