O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Encontro de memórias
Existem dois dias em que, para mim, a terra parou. O primeiro aconteceu quando eu tinha cerca de sete anos, em um domingo comum. Meu pai montava seu pequeno ritual musical: carregava uma cadeira, espalhava as revistas de cifras na cama e deixava que os acordes preenchessem a casa. Enquanto eu brincava no chão, a voz de Raul Seixas criava um refúgio íntimo, um instante que meu mundo interno decidiu guardar como lugar de paz.
O segundo dia em que a terra parou veio doze anos depois. Não foi um dia só, mas uma sequência de dias em que quase todos decidiram — ou foram obrigados — a permanecer em casa. O empregado não saiu porque o patrão também não estava lá; o aluno não foi à escola porque o professor não o esperava; a rotina inteira foi suspensa por algo que parou o planeta, mesmo que não por vontade própria.
Assim como no primeiro dia, Raul também estava presente. As mesmas revistas antigas, gastas pelo uso, continuavam guardadas na estante, preservando uma memória afetiva que atravessou o tempo. E cada vez que seus versos ecoavam, aquele recanto infantil voltava a se mover dentro de mim.
Hoje as revistas quase não saem do lugar e acumulam poeira, mas continuam guardando meus dois dias. Raul anunciava o segundo, mas é ao primeiro que retorno sempre que escuto alguém cantar sobre "o dia em que a Terra parou". É ali que a memória repousa — entre acordes simples e a sensação de que, por um instante, tudo realmente ficou imóvel.
Texto Adaptado
LIMA, Natália Milena Alexandre. Encontro de memórias. In: MALULY, Luciano Victor Barros et al. (org.). Crônicas para ler e ouvir [recurso eletrônico]. São Paulo: ECA-USP, 2021. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/7 30/648/2404 . Acesso em: 21 nov. 2025.
Na frase "Enquanto eu brincava no chão, a voz de Raul Seixas criava um refúgio íntimo, um instante que meu mundo interno decidiu guardar como lugar de paz.", o uso da vírgula atende a exigências específicas da sintaxe da oração e da organização das estruturas coordenadas e subordinadas. Com base na análise normativa da pontuação, assinale a alternativa correta sobre o uso da vírgula nesse período.
- A A vírgula após "íntimo" rompe uma unidade sintática essencial, pois separa o objeto direto composto do verbo "criar", o que contraria os princípios normativos de pontuação conforme a Gramática normativa.
- B A primeira vírgula separa uma oração subordinada adverbial deslocada, recurso permitido e recomendado pela norma culta, pois marca a anteposição de um adjunto adverbial extenso, contribuindo para a clareza da progressão sintática e semântica da frase.
- C A vírgula que sucede "chão" é opcional, podendo ser suprimida sem prejuízo para a correção gramatical ou clareza do enunciado, já que a oração subordinada temporal não tem extensão suficiente que justifique a sua anteposição marcada por vírgula.
- D A presença das duas vírgulas é explicada pelo caráter cumulativo das orações, que se coordenam entre si com sentido aditivo, marcando a progressão de ideias independentes dentro do período composto por justaposição.
- E A segunda vírgula isola um aposto especificativo, pois o segmento "um instante que meu mundo interno decidiu guardar como lugar de paz" retoma e esclarece "um refúgio íntimo", funcionando como estrutura de reexplicitação.