IDAF-AC - Engenheiro Agrônomo - IBADE (2020) Questão 5

Texto 1


Antes que elas cresçam


Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de Pilot. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.



Affonso Romano de Sant´ Anna (Fonte: http://www.releituras.com/arsant_antes.asp, acesso em janeiro de 2020.)




Texto 2


POEMA ENJOADINHO


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos

Como sabê-lo?

Se não os temos

Que de consulta

Quanto silêncio

Como o queremos!

Banho de mar

Diz que é um porrete...

Cônjuge voa

Transpõe o espaço

Engole água

Fica salgada

Se iodifica

Depois, que boa

Que morenaço

Que a esposa fica!

Resultado: filho,

E então começa

A aporrinhação:

Cocô está branco

Cocô está preto

Bebe amoníaco

Comeu botão. F

ilhos? Filhos.

Melhor não tê-los

Noite de insônia

Cãs prematuros

Prantos convulsos

Meu Deus, salvai-o!

Filhos são o demo

Melhor não tê-los...

Mas se não os temos

Como sabê-los?

Como saber

Que macieza

Nos seus cabelos

Que cheiro morno

Na sua carne

Que gosto doce

Na sua boca!

Chupam gilete

Bebem xampu

Ateiam fogo

No quarteirão

Porém, que coisa

Que coisa louca

Que coisa linda

Que os filhos são!


(Fonte: Vinícius de Moraes. Poesia completa & prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1987. p. 261-2.)



No fragmento destacado em: “No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas.”, assinale a justificativa devida para o uso de acento grave indicativo de crase:

  • A usa-se acento grave indicativo de crase antes da palavra ‘casa’.
  • B o verbo “subiam” (subir), sendo transitivo indireto, exige preposição ‘a’, que se soma ao artigo o qual acompanha o substantivo ‘casa’.
  • C emprega-se acento grave indicativo de crase porque a palavra ‘casa’ está acompanhada de um adjunto adnominal “de praia”.
  • D os verbos “subiam” e “iam”, ambos sendo transitivos indiretos, exigem preposição ‘a’.
  • E o verbo “iam” (ir), sendo intransitivo, exige preposição ‘a’ como complemento indicando lugar, que se soma ao artigo o qual acompanha o substantivo ‘casa’.

Questões Relacionadas de Português

Em relação ao padrão ortográfico vigente da língua portuguesa, considere as seguintes sentenças:


1. Mariana não pôde por na poupança o dinheiro que recebeu de casamento.

2. O voo que trouxe os passageiros de Londres a São Paulo sofreu um atraso de 2 horas.

3. A matéria-prima usada para fazer o bolo foi importada da Itália.

4. A microrregião da Chapada dos Veadeiros possui 21.337,58 km2 de área total e 62.656 habitantes (2,94 de densidade populacional), distribuídos em 8 municípios.

5. A Educação a Distância é uma forma de ensino que possibilita a auto-aprendizagem.


Segue(m) as normas da nova ortografia a(s) sentença(s):

  • A 3 apenas.
  • B 1 e 5 apenas.
  • C 2, 3 e 4 apenas.
  • D 1, 2, 4 e 5 apenas.
  • E 1, 2, 3, 4 e 5.
Leia o trecho: "Há uma preocupação entre os alunos de que as escolas apoiem no desenho do futuro deles", destaca Tatiana Klix, diretora da Porvir, uma plataforma que produz conteúdos de apoio a educadores, que também esteve à frente da pesquisa.´ e assinale a alternativa incorreta.
  • A O verbo "haver é impessoal.
  • B A palavra "entre" é, morfologicamente, uma preposição.
  • C A expressão "uma plataforma" é composta, respectivamente, por um artigo indefinido e um substantivo.
  • D Em "apoio a educadores", a palavra "a" é uma preposição.
  • E Em "que também esteve", a palavra "que" é uma conjunção.
Quanto à classificação gramatical das palavras, assinale a alternativa correta.
  • A "Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado!" Rui Barbosa. As palavras em destaque são substantivo concreto e advérbio de negação, respectivamente.
  • B "Difícil é ganhar um amigo em uma hora; fácil é ofendê-lo em um minuto." Provérbio Chinês. As palavras em destaque são artigo definido e adjetivo, respectivamente.
  • C "O medo de perder tira a vontade de ganhar." Wanderley Luxemburgo. As palavras em destaque são preposição e substantivo comum, respectivamente.
  • D "Arriscamo-nos a perder quando queremos ganhar demais." Jean de La Fontaine. As palavras em destaque são pronome oblíquo e conjunção, respectivamente.

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