O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
O mote
A moça atende o celular dentro do Metrô, fala com suavidade, diz que entende, que tudo bem, que fica para outro dia — e, ao desligar, resmunga um "cachorro". A cena, tão cotidiana quanto misteriosa, oferece ao cronista um ponto de partida: quem era o interlocutor oculto? O que fez para merecer tal desprezo? O enigma, mais que a resposta, já é matéria literária.
O mote da crônica pode surgir de situações como essa ou de qualquer detalhe da vida: o clima instável, o amor que acaba ou renasce, a cidade que nos cerca, a falta de assunto, a dor ou a alegria — sendo a dor, muitas vezes, mais fértil. Até mesmo o anônimo "cachorro" ao telefone pode servir para inaugurar uma narrativa.
Embora a definição escolar descreva a crônica como relato histórico em ordem temporal, o gênero é muito mais flexível: pode ser leve, circunstancial, irônica ou até leviana, dependendo do tema. Rubem Braga dizia que, se não é aguda, é crônica — e talvez essa seja a melhor orientação para quem tenta definir o indefinível.
Encontrado o mote, basta entregar-se ao imaginário. Na história imaginada pelo autor, a moça desceria na estação seguinte para confrontar o "cachorro", mas hesita: e se ele estiver dizendo a verdade? Melhor deixar a trama inacabada — para não estragar o dia dela, o dele, nem o ganha-pão do cronista.
Texto Adaptado
PIMENTEL, Luiz Cunha. O mote. In: RECHIA, Rosângela Beatriz (Org.). Concurso Literário Felippe D?Oliveira: conto, crônica e poesia − Premiados 2017 e 2018. Santa Maria: Imprensa Universitária/UFSM, 2018. Disponível em: https://www.santamaria.rs.gov.br/arquivos/baixar-arquivo/conteudo/D15 -1884.pdf . Acesso em: 21 nov. 2025.
Considerando a estrutura sintática do trecho "deixar a trama inacabada" em "Melhor deixar a trama inacabada — para não estragar o dia dela, o dele, nem o ganha-pão do cronista", avalie o uso da crase antes do termo "trama" e com base nos princípios da regência verbal e da estrutura da frase, assinale a alternativa correta.
- A A crase é facultativa, já que o verbo "deixar" pode ser transitivo direto ou indireto, dependendo do contexto, e neste caso a preposição "a" é opcional.
- B A ausência da crase decorre do fato de o substantivo "trama" estar no singular, e a regência do verbo "deixar" exigir pluralidade para ocorrer a contração com o artigo.
- C O uso da crase seria possível, mas evitável, pois o termo "trama" exerce função de adjunto adverbial, e nesse caso a norma padrão admite o uso opcional do acento indicativo.
- D O uso da crase seria incorreto, pois o verbo "deixar" é transitivo direto neste contexto, e "a trama" funciona como objeto direto, sem exigência de preposição.
- E O uso da crase é obrigatório, pois o verbo "deixar" exige preposição, e o substantivo feminino "trama" está antecedido de artigo definido, o que configura a fusão exigida.