Questão 5 Comentada - Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia (AL-RO) - Assistente Legislativo (Sem Especialidade) - FGV (2026)

ATENÇÃO: O texto a seguir se refere à questão.


'Quer adressar?', me perguntou a moça


De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui – a ficha caiu:

“Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.

A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz up to date:


“Sim, por favor, adressa, sim”.


(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em “O Globo”.)


Em relação ao texto, assinale a afirmativa correta.

  • A A crítica ao emprego do verbo adressar advém do repúdio do autor a palavras que infrinjam a pureza vernacular.
  • B Em “exibindo às vezes uma mesóclise de polainas”, o autor reconhece que a mesóclise deve ser utilizada com frequência na linguagem escrita.
  • C Para tirar a nota mil do Enem, o estudante deve obedecer rigorosamente à norma culta e evitar estrangeirismos e neologismos, o que não é o caso do autor, que é mais liberal nesse sentido.
  • D Os rigores de um professor de português nada têm a ver com as normas gramaticais de um Manual de Redação.
  • E Em “como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui” o autor externa ironicamente sua exaltação à linguagem do passado e sua crítica à linguagem falada no presente.