Questão 4 Comentada - Prefeitura Municipal de Campinas - Enfermeiro - VUNESP (2023)

Leia o texto para responder à questão.

        A memória dos que envelhecem (e que transmitem aos filhos, aos sobrinhos, aos netos, a lembrança dos pequenos fatos que tecem a vida de cada indivíduo e do grupo com que ele estabelece contatos, correlações, aproximações, antagonismos, afeições, repulsas e ódios) é o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho — porque só este sabe que existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética. Só o velho sabe daquele vizinho de sua avó, há muita coisa mineral dos cemitérios, sem lembrança nos outros e sem rastro na terra — mas que ele pode suscitar de repente (como o mágico que abre a caixa dos mistérios) na cor dos bigodes, no corte do paletó, na morrinha do fumo, no ranger das botinas de elástico, no andar, no pigarro, no jeito — para o menino que está escutando e vai prolongar por mais cinquenta, mais sessenta anos a lembrança que lhe chega, não como coisa morta, mas viva qual flor olorosa e colorida, límpida e nítida e flagrante como um fato presente.
         E com o evocado vem o mistério das associações trazendo a rua, as casas antigas, outros jardins, outros homens, fatos pretéritos, toda a camada da vida de que o vizinho era parte inseparável e que também renasce quando ele revive — porque um e outro são condições recíprocas. Costumes de avô, responsos de avó, receitas de comida, crenças, canções, superstições familiares duram e são passadas adiante nas palestras de depois do jantar; nas das tardes de calor, nas varandas que escurecem; nas dos dias de batizado, de casamento, de velório.

(Pedro Nava. Baú de Ossos. São Paulo: Cia das Letras, 2012)


A partir da leitura do texto, é correto afirmar que o autor

  • A reconhece que certos conhecimentos quando são pessoais não valem nada e que, por isso, deve-se consultar outras pessoas, especialmente as de outras gerações.
  • B menciona situações como batizados, casamentos e velórios para mostrar que há uma religiosidade mais profunda nas pessoas de gerações anteriores.
  • C defende a transmissão das memórias dos mais velhos aos mais novos como modo de construção de conhecimento prático sobre o mundo.
  • D compreende que há detalhes nas histórias do passado, como a rua, as casas antigas, entre outras coisas que fazem com que os mais velhos se sintam renascer.
  • E enxerga na evocação de certos fatos do passado algo de poético que pode ser mantido como tradição viva nas gerações vindouras.