HÚMUS
Pátios de lajes soerguidas pelo único
esforço da erva: o castelo –
a escada, a torre, a porta,
a praça.
Tudo isto flutua debaixo
de água, debaixo de água.
− Ouves
o grito dos mortos?
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
só a água fala nos buracos.
São palavras pronunciadas com medo de pousar,
uma tarde que viesse na ponta dos pés, o som
devagar de uma
borboleta.
− A morte não tem
só cinco letras. Como a claridade na água
para me entontecer,
a cantaria lavrada:
com um povo de estátuas em cima,
com um povo de mortos em baixo.
Primaveras extasiadas, espaços negros, flores desmedidas
− todos os dias debalde repelimos os mortos.
É preciso criar palavras, sons, palavras
vivas, obscuras, terríveis.
[...]
HELDER, Herberto. Poemas completos. Rio de Janeiro: Tinta-da-china Brasil, 2016. p. 215-216.
Avaliando o excerto do poema de Herberto Helder à luz dos fatores que Koch e Elias (2012) relacionam à coerência, é pertinente afirmar que
- A a precariedade com a qual se articulam os enunciados construídos pela combinação de elementos retirados de outro texto é um indício de que houve falha no processo de monitoramento realizado pelo leitor interno.
- B a seleção lexical não contribui para evidenciar qual é a focalização assumida pelo texto, uma vez que a aproximação aleatória entre campos semânticos prima mais pela confusão do que pela clareza das ideias.
- C o reconhecimento de que a matéria do poema provém da obra de Raul Brandão é procedimento necessário para atribuição de sentido ao texto, dispensando saberes de natureza metagenérica.
- D a opção do autor por desautomatizar o processo de leitura do texto evidencia uma atitude provocativa que estimula ainda mais uma postura ativa do leitor, potencializando a natureza interativa da produção do sentido.