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Ironia
Ouvi de Nizan Guanaes, um dos maiores publicitários brasileiros, uma frase que não sei se é mesmo dele, mas é verdadeira à beça: comunicação não é o que a gente diz, e sim o que os outros entendem.
Ou seja, se você disse alguma coisa que o outro não entendeu, ou entendeu errado, a comunicação foi feita igual, só que não saiu como você queria. Isso acontece muito quando se emprega a ironia, coisa que faço eventualmente e que pelo visto faço mal, caso contrário meus leitores não ficariam tão indignados.
Há pouco tempo escrevi uma crônica ligeiramente debochada, onde eu dizia que, depois de assistir ao programa “No Limite”, havia chegado à conclusão de que não sobreviveria cinco minutos na selva, mesmo tendo lido todos os livros que li, e que portanto o futuro não era dos ratos de biblioteca, e sim dos escoteiros. Para quê.
Meu correio eletrônico sofreu uma avalanche de cartas de leitores. Uma parte deles quase teve uma síncope por eu ter afirmado que escrever e ler eram coisas desnecessárias e tentou, com muita educação e argumentação, me convencer a não desistir da profissão e de seguir incentivando os estudantes a encararem os livros. O outro grupo não quis saber de papo, já saiu me chamando de irresponsável para fora. Os únicos que adoraram a crônica, adivinhe: foram os escoteiros. Ironia é dizer exatamente o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo, geralmente com uma intenção sarcástica. Ironizar é depreciar com humor.
Existem mil maneiras de se dizer a mesma coisa. Ao usar a ironia o escritor convida o leitor a pensar, fazendo com que ele se sinta coautor daquele pensamento pelo simples fato de ter compreendido seu significado. A ironia enlaça, a ironia perturba, a ironia é zombeteira.
A ironia comunica mais do que a verdade nua e crua. Mas só funciona quando os outros entendem.
(Marta Medeiros. Non-Stop: Crônicas do Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 2015)
Assinale a alternativa em que a concordância verbal e nominal está em conformidade com a norma-padrão da língua.
- A As nuances que determinam que uma comunicação não deve ser interpretada literalmente são muito pouco perceptíveis.
- B A falta de sucesso em comunicar uma ideia em geral está muito relacionado à capacidade do receptor de decodificar a informação.
- C Alguns leitores ficam muito facilmente indignado com informações às quais têm acesso e cujo sentido simplesmente lhes escapam.
- D As denominadas ironias nada mais é do que a expressão de uma ideia referindo-se a algo com sentido oposto do que se quer comunicar.
- E A capacidade do escritor de levar o leitor a se transformar em coautor de seus pensamentos é revelador de maturidade artística.