AMAR
Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito,
e a sede infinita.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record, 1985.
Considerando as características da obra drummondiana, é correto afirmar que o poema “Amar”:
- A Busca a perfeição formal, o rigor métrico e os temas universais – como o sentimento amoroso -, em consonância com o ideal parnasiano.
- B Aproxima-se do Simbolismo, pois privilegia imagens vagas, transcendentes, aparentemente confusas e contraditórias para sugerir o amor.
- C Enquadra-se no Realismo, pois exalta a pátria e a irreverência linguística, desenvolvendo uma visão crítica e real do sentimento amoroso, que é voltado para a essência humana.
- D Expressa a postura crítica e reflexiva, revelando uma visão do amor como um sentimento existencial e complexo, uma das características da sua obra na 2ª geração modernista.