Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC-PA) - Professor - Língua Portuguesa (2018) Questão 70

Um novo José

                              Josias de Souza.


Calma, José.

A festa não começou,

a luz não acendeu,

a noite não esquentou,

O Malan* não amoleceu.

Mas se voltar a pergunta:

e agora, José?

Diga: ora Drummond,

agora Camdessus*.

Continua sem mulher,

continua sem discurso,

continua sem carinho,

ainda não pode beber,

ainda não pode fumar,

cuspir ainda não pode,

a noite ainda é fria,

o dia ainda não veio,

o riso ainda não veio,

não veio ainda a utopia,

o Malan tem miopia,

mas nem tudo acabou,

nem tudo fugiu,

nem tudo mofou.

Se voltar a pergunta,

E agora, José?

Diga: ora Drummond,

Agora FMI.

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

O Malan nada faria,

mas já há quem faça.

Ainda só, no escuro,

qual bicho do mato,

ainda sem teogonia,

ainda sem parede nua,

pra se encostar,

ainda sem cavalo preto,

Que fuja a galope,

você ainda marcha José!

Se voltar a pergunta:

José para onde?

Diga: ora Drummond,

por que tanta dúvida?

Elementar, elementar,

Sigo pra Washington

e, por favor, poeta,

não me chame de José.

Me chame Joseph.

                         (Folha de São Paulo, Caderno 1, p.2.04/10/1999.)

*Malan foi Ministro da Fazenda de 1 de janeiro de 1995 até 1 de janeiro de 2003.

*Michel Camdessus foi diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional entre 16 de janeiro de 1987 e 14 de fevereiro de 2000. 


Acerca da construção dos versos “cuspir ainda não pode, / a noite ainda é fria, / o dia ainda não veio, / o riso ainda não veio, / não veio ainda a utopia,” pode-se afirmar que a repetição do vocábulo “ainda” representa
  • A uma relação contrastiva que indica a polaridade entre aspecto positivo e negativo em relação às ações expressas.
  • B a implicação de um juízo favorável do eu lírico em relação aos fatos mencionados e associados ao vocábulo mencionado.
  • C um momento arbitrário, reconhecível pelos interlocutores relativamente ao momento da enunciação, determinando também a duração do evento.
  • D a insistência do eu lírico em demonstrar a não consumação de um processo que demonstra ser, de acordo com o conteúdo, esperado e desejado.

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