Secretaria de Estado da Saúde - Rondônia (SESAU-RO) - Técnico - enfermagem (2009) Questão 8

Um mosquito bicentenário

        
Que estranha força é esta, capaz de ameaçar um império, avançar furiosamente contra a nascente república, enfrentar regimes democráticos e ditaduras e atravessar dois séculos, como uma nuvem de medo e fúria? Traiçoeiro, ele desembarcou no porto do Rio de Janeiro num dia quente – o que já foi uma boa acolhida, para quem gosta de calor: 3 de dezembro de 1849, no início do reinado do jovem imperador Pedro II. Vinha no navio , apinhado de escravos. Na escala, Nova Orleans, Havana e Salvador. Dez dias depois, a capital do império recebia a notícia de que uma epidemia assolava a cidade baiana. Já era tarde. A febre amarela havia chegado ao Rio, onde atingiu quase 405 dos 266.000 habitantes e matou mais de 4.000 pessoas. Mas a venerável Academia Imperial de Medicina jamais imaginaria que a peste tinha um único responsável: o , que 100 anos depois ganharia o mundo sob o nome de . Oficialmente, só em 1900 se confirmou que o transmissor da febre amarela era um inseto. O mesmo que atormenta o país nos dias de hoje. Como se vê, é um mosquito com história para contar.

        A odisseia do combate ao no Brasil é um romance em que os heróis vestem branco e nem sempre se dão bem. São cientistas, médicos, sanitaristas e entomólogos que, desde o século XIX, tentam vencer um inimigo sorrateiro e popular. Na capa da revista , do século passado, o chargista J. Carlos transformava o sanitarista Oswaldo Cruz em mosquito. Meses antes, Cruz iniciara sua batalha. O Rio de Janeiro era uma pocilga. Havia surtos de febre amarela, de peste bubônica, de cólera, de varíola. Cem anos depois, a dengue é a epidemia da vez, disseminada pelo mesmíssimo mosquito . Está faltando um Oswaldo Cruz para dar ao combate o caráter de guerra nacional. (...)

        Em 1903 não faltou determinação. Convidado pelo recém-empossado presidente Rodrigues Alves, Oswaldo Cruz fez do Rio um laboratório contra a febre amarela. O brasileiro foi um dos primeiros no mundo a reconhecer a tese de que o mosquito era o causador da epidemia. “Até então, pensava-se que a causa da doença era um microrganismo e tinha relação com a atmosfera. Por isso, era combatida com fogueiras em praças públicas, ervas aromáticas e até tiros de canhão", conta o historiador Jaime Benchimol (...). Juntos, o e a febre amarela atormentaram a população e arrasaram a imagem da cidade. Entre 1897 e 1906, 4.000 ingleses, portugueses e franceses residentes no Rio morreram por causa da epidemia. A cidade passou a ser conhecida pelo resto do mundo como “túmulo dos estrangeiros” ou “porto sujo”, o que tornou a batalha contra o mosquito desafio aos brios da nação. A luta ferrenha não impediu que o mal se espalhasse. Enquanto a capital era palco de algumas vitórias, o inseto demonstrava poder de fogo em outras regiões. Em 1909, Oswaldo Cruz teve de levar sua brigada a Belém.

        O curioso é que, apesar de tanta disposição para a briga, o mais parece um antivilão. Preguiçoso, voa a apenas 1 metro do chão – outros mosquitos alcançam até 50 metros – e só pica durante o dia. Basicamente domiciliar, também não se afasta mais de 100 metros de seu ponto original. “Ele gosta de ficar em casa, onde há água limpa e gente para picar", diz o entomologista Sebastião José de Oliveira, 83 anos, que há seis décadas se dedica ao estudo dos mosquitos. (...) Por volta de 1940, tornou-se o temido , cujo vaivém pode ser em boa parte explicado pelo desleixo em seu combate. O quadro hoje tem semelhanças com o passado. As péssimas condições sanitárias do Rio atual permitem que o inseto se reproduza. Algumas favelas cariocas vivem em situação comparável à do Rio do século XIX, favorecendo a proliferação do mosquito, agora mais resistente aos inseticidas. (...) . Nesse cenário, só resta a receita de Oswaldo Cruz. E deflagrar uma guerra sem trégua até a erradicação do . Em 1958, o mosquito foi considerado extinto, conquista que o descaso pôs a perder. Agora, faz sua volta triunfal.




A palavra “vaivém”, no último parágrafo do texto, é formada pelo processo de:

  • A composição por justaposição;
  • B composição por aglutinação;
  • C derivação prefixal;
  • D derivação sufixal;
  • E derivação imprópria.

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