Questão 16 do Concurso Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2017)

“Canção para álbum de moça”:


Bom-dia: eu dizia à moça

que de longe me sorria.

Bom-dia: mas da distância

ela nem me respondia.

Em vão a fala dos olhos

e dos braços repetia

bom-dia à moça que estava

de noite como de dia

bem longe de meu poder

e de meu pobre bom-dia.

Bom-dia sempre: se acaso

a resposta vier fria

ou tarde vier, contudo

esperarei o bom-dia.

E sobre casas compactas

sobre o vale e a serrania

irei repetindo manso

a qualquer hora: bom-dia.

Nem a moça põe reparo

não sente, não desconfia

o que há de carinho preso

no cerne deste bom-dia.

Bom dia: repito à tarde

à meia-noite: bom dia.

E de madrugada vou

pintando a cor de meu dia

que a moça possa encontrá-lo

azul e rosa: bom-dia.

Bom-dia: apenas um eco

na mata (mas quem diria)

decifra minha mensagem,

deseja bom o meu dia.

A moça, sorrindo ao longe

não sente, nessa alegria,

o que há de rude também

no clarão deste bom-dia.

De triste, túrbido, inquieto,

noite que se denuncia

e vai errante, sem fogos,

na mais louca nostalgia.

Ah, se um dia respondesses

Ao meu bom-dia: bom-dia!

Como a noite se mudara

no mais cristalino dia!


Considerando o poema acima e o livro de que ele é parte integrante – Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade –, assinale a alternativa correta.

  • A O poema apresenta a esperança de interação do eu-lírico com uma moça, sem deixar de lado os sentimentos perturbadores que contrastam com a aparente alegria do emissor.
  • B O poema em questão guarda semelhanças com outro poema do mesmo livro, “Tinha uma pedra no meio do caminho”, o que se observa pela insistência num só tema e pela repetição dos versos.
  • C A palavra “canção”, no título, e o repetido cumprimento “bom-dia” criam uma atmosfera de leveza e romantismo presente também no poema “A mesa”, que descreve a rotina familiar.
  • D Observa-se uma mudança na atitude do eu-lírico quando a moça responde a seu cumprimento: de triste e inquieto, passou a se sentir alegre e túrbido pela resposta que transformou o seu dia.
  • E A cotidianidade da vida moderna se mostra nesse diálogo marcado pelo ritmo frenético dos versos futuristas e pela velocidade do eu-lírico que se desloca por um cenário urbano.