Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) - Técnico Administrativo (2010) Questão 9

Leia o texto abaixo, que sofreu pequenas adaptações e alterações, extraído da obra Estação Carandiru, de Drauzio Varella, para responder à questão.

      São tantas as situações que se apresentam na cadeia que uma vida é pouco para conhecê-las. Essa lição de humildade dada pelos cadeeiros mais experientes ajudou-me a relaxar e a desenvolver técnicas defensivas para não ser feito de idiota o tempo todo.

      A advertência clara do Pedrinho, de que eu não podia contar com meus auxiliares para desmascarar os farsantes, tornou-me mais atento às expressões faciais. Enquanto o doente fala; há que olhá-lo direto nos olhos, mudo, o olhar fixo por uns segundos a. mais após o término de cada frase. Nos momentos de dúvida, deixar cair o silêncio, abaixar a cabeça sobre a ficha médica como se fosse escrever e dar um bote com os olhos na direção dos enfermeiros e quem mais esteja por perto, para surpreender neles as expressões de descrédito. 

      Com a experiência que a repetição traz, ganhei segurança como médico e espontaneidade no trato com a malandragem. Devagar, aprendi que a cadeia infantiliza o homem e que tratar de presos requer sabedoria pediátrica. Muitas vezes é suficiente deixá-los se queixar ou simplesmente concordar com a intensidade do sofrimento que referem sentir, para aliviá-los. O ar de revolta que muitos traziam para a consulta desaparecia depois que lhes palpava o corpo e auscultava pulmões e coração. No final, não era raro encontrar ternura no olhar deles. A paciência de escutar e o contato do exame físico desarmavam o ladrão.

      A comida servida na Casa de Detenção ê triste. Depois de alguns dias, não há cristão que consiga digeri-la; a queixa é geral. Os que não têm ganha-pão na própria cadeia ou família para ajudar sofrem. Riquíssima em amido e gordura, a dieta, entretanto, engorda. Obesidade aliada à falta de exercício físico é um dos problemas de saúde na Detenção.

      As galerias são lavadas todo final de tarde pelos "faxinas", um grupo de homens que constitui a espinha dorsal da cadeia. Tudo é limpo, ninguém ousa jogar lixo nas áreas internas. É raro ver um xadrez sujo, e, quando acontece, seus ocupantes são chamados de maloqueiros, com desdém. Na Copa de 94, assisti Brasil versus Estados Unidos num xadrez com 25 presos, no pavilhão Dois. Não havia um cisco de pó nos móveis, o chão dava gosto de olhar. Em sistema de rodízio, cada ocupante era responsável pela faxina diária. 



Levando em consideração as afirmações do texto e as orientações da gramática normativa tradicional, é correto afirmar que 
  • A as seguintes palavras ou expressões, extraídas do „ quarto parágrafo, podem ser utilizadas para demonstrar a hipótese de que o autor do texto utilizou-se de vocabulário informal na redação: "é triste", "não há cristão", "ganha-pão" e "riquíssima".
  • B o trecho "Depois de alguns dias, não há cristão que consiga digeri-la; a queixa é geral", do quarto parágrafo, pode ser reescrito da seguinte maneira, sem que ocorra erro gramatical ou prejuízo semântico: "Depois de alguns dias, não há cristão que consiga digeri-la, pois a queixa é geral".
  • C no trecho: "Os que não têm ganha-pão na própria cadeia ou família para ajudar sofrem.", do quarto parágrafo, a expressão destacada pode ser substituída, sem que ocorra erro gramatical ou prejuízo semântico por "Quem".
  • D no trecho: "Riquíssima em amido e gordura, a dieta, entretanto, engorda", do quarto parágrafo, a primeira expressão destacada tem valor semântico de causa; a segunda, por sua vez, estabelece quebra de expectativa criada entre, de um lado, as afirmações feitas nos períodos anteriores e, de outro, as feitas no período em destaque.
  • E no trecho: "As galerias são lavadas todo final de tarde pelos 'faxinas'’, do quinto parágrafo, a palavra destacada é sinônimo de "faxineiros" e foi grafada entre aspas porque foi utilizada em sentido figurado.

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