Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP) - Tecnólogo de Administração (2013) Questão 70

Leia o capítulo XX de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para responder à questão.

Bacharelo-me

Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma ideia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Grande futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político ou até bispo, – bispo que fosse, – uma vez que fosse um cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus, Marcela! dias de delírio, joias sem preço, vida sem regime, adeus! Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-­vos com as calcinhas da primeira idade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava­me com as suas matérias árduas; estudei-­as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram­-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, – principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-­me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-­me a responsabilidade. Guardei-­o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a Universidade pela vida adiante…

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1997)



Com base nas informações do texto, é correto afirmar que o narrador sentia-­se

  • A feliz por poder estudar em Coimbra, pois um curso superior lhe daria condições de superar as dificuldades financeiras.
  • B confiante e estudara com afinco, pois sabia que a universidade tinha prestígio e que exigia estudos árduos de seus alunos.
  • C desconsolado, em parte, por deixar a universidade, pois lhe incomodava o fato de ter de enfrentar os compromissos da vida adulta.
  • D indeciso e hesitante por não saber qual área de estudos seguir em Coimbra, embora possuísse variadas aptidões e talentos.
  • E logrado pelas circunstâncias, visto que sua vida em Portugal mostrou­se radicalmente oposta àquela vivida no Rio de Janeiro.

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